sábado, 18 de abril de 2015

AGATHA & TURISMO - Lugares reais que inspiraram Agatha Christie em seus livros

Alguns dos lugares reais onde Agatha Christie ambientou suas obras



Torquay, ao Sul de Devon, Inglaterra


Agatha Christie viajou bastante pelo mundo em sua vida, conheceu muitas pessoas e lugares, os quais também serviram para alimentar sua imaginação na ambientação de suas estórias. 

Porém, a região onde nasceu e onde viveu nos primeiros anos de sua vida, Devon, no Sul da Inglaterra, e em especial sua cidade natal, Torquay, também permeiam muitos de seus livros. Seus vilarejos, construções, casas, hotéis, etc.  aparecem representados em diversas de suas obras, ora com os nomes trocados, ora em evidentes referências. 

Aqui estão alguns desses lugares:




* TORQUAY em Devon, Inglaterra



Marina de Torquay, em Devon.


Torquay, na Riviera Inglesa, é o local onde Agatha Christie nasceu. A cidade aparece em várias obras, através de referências diretas ou de pontos específicos dela.


- Em A Casa do Penhasco, o Magestic Hotel localiza-se na cidade fictícia de St. Loo, que é uma clara referência a Torquay.  

Também a própria casa do penhasco, a Rock House, que se localizava no Rock End, é uma clara referência à Baía de Torquay.



Torquay antiga


- A localidade de Broadhinny onde é ambientado A Morte da Sra. McGinty, localiza-se na estória em algum lugar de South Devon, a mesma região onde fica Torquay. Por esse motivo, acredita-se também que a  localidade de Cullenquay que aparece no livro seria a própria cidade de Torquay.

- Em Portal do Destino, Torquay muda de nome e chama-se Hollowquay.

- Porém, a mais ilustre referência a Torquay não ocorre diretamente, mas relaciona-se com a inspiração que iluminou Agatha Christie para criar Hercule Poirot. O detetive belga foi inspirado nos refugiados daquele país por ocasião da 1ª Guerra Mundial, os quais haviam se estabelecido em Torquay.



********************************




* CAVERNA KENTS, TORQUAY



Caverna Kents, em Torquay


Frederick Miller, o pai de Agatha Christie, fazia parte da Sociedade de História Natural de Torquay, a qual financiava as escavações na Caverna Kents, situada no local.


Em O Homem do Terno Marrom aparece a Caverna Hampsley, em uma clara alusão a Caverna Kents.  




********************************




* ASHFIELD



A jovem Agatha defronte à sua casa Ashfield

Em Portal do Destin,  Ashfield, a casa onde Agatha Christie morou durante sua infância,  é representada pela casa da estória denominada The Laurels.

Consegui encontrar uma foto antiga e em preto e branco da casa da infância de Agatha Christie, Ashfield. Veja no artigo em homenagem à casa em: http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2014/01/agatha-torquay-azul-e-o-ceu-sobre.html




********************************




* O CAMPO DE GOLFE DE TORQUAY



Campo de golfe de Torquay


Agatha Christie, assim como seu primeiro marido, Archibald Christie, era uma grande entusiasta do golfe, e o campo de golfe de Torquay aparece em algumas de suas obras.

* Em Por que não pediram a Evans?, os campos de golfe e as colinas que aparecem no livro são referências ao campo de golfe de Troquay.

* Outra óbvia inspiração nos campos de golfe de Troquay é Assassinatono Campo de Golfe.



********************************




* PRINCESS GARDEN, TORQUAY




Princess Garden (Jardim da Princesa), em Torquay

O belo jardim em estilo clássico vitoriano, inaugurado em 1894, aparece claramente em Os Crimes A B C, quando Alexander Curt o atravessa para ler o jornal.



********************************




* HOTEL IMPERIAL DE TORQUAY



Hotel Imperial, Torquay


O Hotel Imperial de Torquay teve várias menções na obra de Agatha Christie.

- Em Um Caso Adormecido,  o hotel aparece como sendo ele mesmo.

- Em Um Corpo na Biblioteca, seu nome foi trocado para Magistic Hotel, e foi localizado na cidade de Danemouth, em Glenshire.

- Em A Casa do Penhasco, novamente ele figura com o nome de Magistic Hotel, localizando-se agora na cidade fictícia de St.Loo.



********************************




* GRENNWAY – a casa de verão de Agatha Christie



Greenway, casa de verão de Agatha Christie


Figurando em diversas obras está a belíssima casa de verão de Agatha Christie, Greenway, às margens do Rio Dartmouth, a qual eu não me canso de admirar – e a qual você pode fazer uma agradável visita virtual pelos cômodos e jardins através de lindas fotos recentes, após a restauração, em http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2014/03/agatha-torquay-greenway-casa-de-agatha.html


- Em Punição para a Inocência, Greenway está representada pela Sunny Point House. Até mesmo o sinete que está em Greenway e que era utilizado para chamar a barca para o Rio Dartmouth, o Greenway Quail Bell, aparece no livro, sendo que o nome do rio foi trocado para Drymouth.

- Em A Extravagância do Morto encontramos várias referências a Greenway. 

Primeiro, a casa de verão da estória, Nasse House, seria inspirada na própria Greenway. 

Segundo, o albergue para jovens do livro, o Maypool Youth Hostel representa o verdadeiro Hoodown Yoouth Hostel. 

Terceiro, o vilarejo chamado Nassecombe, nas proximidades da Nasse House da estória, seria inspirado no vilarejo de Galpton, nas proximidades de Greenway. 

Quarto, a localidade de Brixham, onde se situa Greenway, na estória teve o nome trocado para o bem parecido Brixwell.

-  Em Os Cinco Porquinhos, Greenway aparece como a casa de Amyas Clrale, que foi assassinado na estória.



********************************




* ILHA DE BURGH



Ilha de Burgh, Devon

A Ilha de Burgh é uma pequena ilha de maré que fica na costa de South Devon, no vilarejo chamado Bigbury-on-Sea. Ela só é acessível a pé conforme a maré baixa e se pode caminhar por uma faixa de terra. Do contrário, um trator faz o transporte das pessoas até a ilha, ou, se for o caso, um barco.

- Em E Não Sobrou Nenhum, a Ilha de Burgh é claramente representada pela sinistra Ilha do Soldado onde a estória acontece.

- Em Morte na Praia, a Smuggler’s Island do livro seria inspirada na Ilha de Burgh, sendo a Baía de Leathercombe da estória a Baía de Bigbury, onde se situa a ilha verdadeira.



********************************



* DARTMOOR



Charneca de Dartmoor, Devon


Dartmoor é uma região de charneca, localizada na área central de Devon, que é o mesmo condado onde se localiza, mais ao Sul, a cidade de Torquay. Com 953 m2, Dartmoor é hoje um Parque Nacional.


Em Mistério em Sittaford, a vila de Sittaford, que só existe na estória, se localizaria na verdadeira Dartmoor.





sexta-feira, 10 de abril de 2015

Notícias & Novidades - DOWNTON ABBEY + AGATHA CHRISTIE = GRAN HOTEL!


A excelente série Gran Hotel: drama, suspense, romance, assassinatos, mistério, cotidiano dos ricos patrões e dos pobres empregados.






Você é fã da obra de Agatha Christie, certo? E também é fã da série britânica Downton Abbey? Então, imagine só uma série que combinasse perfeitamente os dois! E melhor ainda: na qual a própria Agatha Christie aparecesse, aos 15 anos de idade!

Todo o clima de mistério, crimes, assassinatos e investigações dos livros de Agatha Christie misturado com uma estória ambientada no princípio do século XX, em um hotel que é uma construção luxuosa e imponente, envolvendo uma família rica e poderosa, seus conflitos, paixões, ganâncias, conspirações e dramas, e, ao mesmo tempo, narrando a rotina dos empregados e suas vidas particulares, igualmente repletas de amores, conflitos, conspirações, etc. Não seria fantástico?

Pois esta série existe! Trata-se de Gran Hotel, uma maravilhosa produção espanhola, sucesso no mundo todo, transmitida atualmente no Brasil pelo Canal +Globosat, de segunda à sexta, às 21:30h.





UMA HOMENAGEM À AGATHA CHRISTIE




Carolina Lapausa como Agatha Christie



Já faz algum tempo que eu me coçava de vontade de escrever nesta blogazine sobre esta série fantástica. Porém, me faltava um bom argumento para associá-la ao universo de Agatha Christie. 

Eis que, de repente, no início da 3ª temporada, hospedam-se no Gran Hotel a Lady Ludivina (interpretada por Asunción Balaguer), uma nobre idosa e muito rica, acompanhada da jovem filha de uns amigos seus da Inglaterra, uma mocinha de ar esperto, de seus 15 anos. Então a Lady a apresenta à poderosa família Alarcón, proprietários e residentes no hotel:

“Esta é Agatha Mary Clarissa Miller.”

Sim! A própria Agatha Christie! 

Os autores deram um jeito de a jovem Agatha participar brevemente da trama. Interpretada por Carolina Lapausa, Agatha teria se hospedado no Gran Hotel na Espanha quando estava a caminho de Paris. E é claro que ela se envolve em uma investigação que está em andamento no hotel. Muito observadora e inteligente, a jovem Agatha tenta ajudar o detetive Horacio Ayala (Pep Antón Muñoz) e seu parceiro, o policial Ernando (Antonio Reyes).



Detetive Horacio Ayala (Pep Antón Muñoz) e o policial Ernando (Antonio Reyes)



A jovem Agatha anda com um bloquinho de anotações e escreve tudo o que acha interessante para colocar em um livro de mistério. Na série, ela observa a dupla formada pelo detetive Ayala pelo seu parceiro, o policial Ernando. O detetive Ayala é um investigador experiente, inteligentíssimo, e que possui – atenção! - um largo bigode, do qual se orgulha e do qual cuida com zelo, inclusive cobrindo-o com um ridículo protetor à noite quando vai dormir. Já seu parceiro, o policial Ernando, é um sujeito de bom coração, mas de raciocínio lento, até meio bobo, que fica pasmado com as deduções de Ayala.

A jovem Agatha fica tão impressionada com os dois que anota algo em seu caderninho sobre eles, comentando que a dupla daria bons personagens, como um detetive super esperto e seu fiel amigo e parceiro meio tolo. Hum... quem seriam estes personagens, hein?



Carolina Lapausa como Agatha Christie



A propósito, se analisarmos um pouco, o primeiro nome do detetive Ayala é Horacio. Este é o nome de um importante poeta e filósofo grego. Coincidentemente, Hercules, que também começa com a letra H, é o nome de um famoso herói mitológico grego. E também é o nome com o qual o detetive Hercule Poirot, criação de Agatha Christie, foi batizado. Do que se conclui que o detetive Horacio Ayala seria, também, uma homenagem ao nosso querido Hercule Poirot!

Na estória de Gran Hotel, a jovem Agatha também dá preciosos conselhos à mulher que forma par romântico da estória, antes de partir. Eu considerei esta ousadia, em colocar uma pessoa tão famosa e querida como Agatha Christie na trama, como uma bela homenagem à nossa Rainha do Crime.




GRAN HOTEL: SIMPLESMENTE IMPERDÍVEL!





Palacio de La Magdalena, Espanha: cenário do Grande Hotel



Um pouco mais sobre a série: filmada na cidade de Santander e tendo o magnífico Palacio de La Magdalena como cenário principal, fazendo as vezes do Grande Hotel, a série possui 3 temporadas, de 2011 a 2013, em um total de 39 episódios, com cerca de 1 hora de duração cada. Ela foi produzida por Bambu Producyones e criada e dirigida por Ramón Campos, Gema R. Neira e Carlos Sedes, sendo originalmente exibida pelo canal Antena 3. 


Gran Hotel foi vencedora de diversos prêmios, como o de melhor série de televisão e de melhor atriz para Concha Velasco, que interpreta Angela Salinas, a chefe das camareiras do hotel, e para Adriana Ozores, que faz a toda poderosa Dona Teresa de Alarcón Aldecoa, a senhora do hotel e matriarca da família Alarcón.




Empregados do Gran Hotel



O criador se inspirou no livro El Segredo de Angela, escrito por Maria Lopez Castaño. Angela Salinas, personagem interpretada pela veterana Concha Velasco, é uma chefe de camareiras extremamente rígida e severa com os funcionários, porém servil aos patrões. Mas, no passado, teve um romance proibido com o patrão falecido, Sr. Carlos Alarcón, do qual nasceu Andres, um simpático rapaz que vive e trabalha humildemente no hotel servindo aos seus meio irmãos, sem saber que é na verdade o herdeiro de toda a fortuna.








Ah, mas tem muito mais! Há o belo Julio Olmedo ( Yon Gonzales) que se infiltra no hotel como camareiro para investigar o desaparecimento misterioso de sua irmã, Cristina (Paula Prendes), também camareira, a qual ele descobre que foi assassinada. No hotel, ele se envolve com Alicia (Amaia Salamanca), a linda filha caçula da poderosa – e não menos ardilosa - senhora do hotel, Dona Teresa Alarcón (Adriana Ozores). Juntos, o camareiro Julio e a rica herdeira Alicia se envolvem em perigosas tramas de mistério, conspirações e investigações, além, é claro, de vivenciarem uma paixão impossível.



Vista aérea do Palacio de La Magdalena, Espanha




Gran Hotel é a combinação perfeita de mistério e investigação, ricos poderosos e empregados servis, conspirações e intrigas, assassinatos e outros crimes, amor e paixão, suspense e surpresas. Enfim, apresenta o melhor de diferentes estilos, em ótimos atores, personagens cativantes e uma direção brilhante.

Vale a pena ver!



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Poirot: Bigodes & Bengala - COMBUSTÍVEL PARA AS CÉLULAS CINZENTAS


Dava umas palmadinhas na cabeça ovoide, com absurda complacência, e observava, todo satisfeito: “O verdadeiro trabalho é feito aqui dentro. As celulazinhas cinzentas... lembre-se sempre das celulazinhas cinzentas, mon ami.” 
(Poirot em Assassinato no Campo de Golfe)


David Suchet como Hercule Poirot


As famosas células cinzentas de Hercule Poirot não funcionam por si sós: elas necessitam de alimento para operarem corretamente. Isto é, precisam de dados, de informações, de fatos com os quais trabalharem.

Mas como Poirot obtém o combustível para suas células cinzentas? 

O esperto detetive usa de alguns recursos muito próprios para conseguir as informações de que precisa. Algumas das técnicas particulares de Poirot a fim de buscar os dados necessários para que suas células cinzentas possam operar e solucionar os mais intricados mistérios são:

1- Para despistar as pessoas:

A) Fingir que ele próprio fala mal inglês

B) Fingir ser presunçoso

2- Para obter informações das pessoas:

A) Contar mentirinhas

B) Envolver as pessoas para que falem naturalmente


Vamos a estas técnicas:


TÉCNICAS DE POIROT PARA ALIMENTAR 

SUAS CÉLULAS CINZENTAS


1- Para despistar as pessoas:


A) Fingir que ele próprio fala mal inglês


Meu amigo, falar o Inglês de modo estranho e sotaque é uma vantagem enorme. Isso leva as pessoas a lhe desprezarem. Elas dirão: um estrangeiro - ele não conseguem sequer falar Inglês corretamente. (Poirot em Tragédia em Três Atos)


Albert Finney como Hercule Poirot


Até agora você pensava que Hercule Poirot fala com todos aqueles maneirismos, com aquele sotaque e com todas aquelas palavras e frases em francês simplesmente porque ele é assim mesmo? Ledo engano! Sim, Poirot é belga, sim, ele tem sotaque, sim, sua língua mãe é o Francês. Mas saibam que ele domina o idioma inglês muito mais do que deixa transparecer.

Na verdade, ele se aproveita de sua condição de estrangeiro  - e, consequentemente, do preconceito que os ingleses teriam contra os estrangeiros – como uma técnica para dar a impressão de ser apenas um tolo, alguém que não se pode levar muito a sério. Com isso, as pessoas relaxam, não lhe dão muita importância, e acabam se descuidando e revelando preciosas informações, as quais servirão de combustível para suas células cinzentas.

Tal conclusão precipitada das pessoas em relação ao seu aspecto estrangeiro fica bem clara nas palavras do Dr. Giles Reilly em Morte na Mesopotâmia, quando descreve sua estranheza a primeira vez que avista Poirot:

Creio que jamais esquecerei minha primeira visão de Hercule Poirot. (...) Para começar, foi um choque, e acho que todos os outros devem ter sentido a mesma coisa! (...) Sabia, naturalmente, que era estrangeiro mas não esperava que fosse tanto assim, se é que me faço entender.

Ao vê-lo, dava vontade de rir! Dir-se-ia que tivesse saído de um palco ou de um filme. Para começar, não tinha mais de metro e meio de altura, em minha opinião — um homenzinho gordo, esquisito, bastante velho, com um bigode enorme e a cabeça feito um ovo. O protótipo do cabeleireiro das peças cômicas!

E conclui com desdém:

E esse era o homem que ia descobrir o assassino da senhora Leidner!

E, mais adiante, ainda demonstra desprezo pelo inglês com erros de Poirot:

— Não está tudo evidente e à tona dágua, não? — perguntou o homenzinho na ponta da mesa. Ora, nem sequer sabia falar direito!

Poirot até chaga a dar uma exageradinha em seus modos estrangeiros e carrega ainda mais seu sotaque quando precisa que os outros o desprezem mais e fiquem ainda mais descuidados. Ah, mas tolas, muito tolas são as pessoas que minimizam a aguçada mente do detetive!


B) Fingir ser presunçoso

Também eu me ponho a me gabar! Um inglês diz muitas vezes, "Um sujeito que pensa tanto de si mesmo não pode valer muito. ... E assim, veja você, eu faço com que as pessoas baixem a guarda. (Poirot em Tragédia em Três Atos)



David Suchet como Hercule Poirot


Quem diria! Um dos atributos pelos quais o famoso detetive é conhecido – sua completa falta de modéstia – não é de todo genuíno. Quero dizer que Poirot possui inteira consciência de seus modos presunçosos, e, mais do que isso: ele faz uso dessa presunção toda como uma técnica para despistar os outros, ou mais propriamente, os ingleses tolos. Assim, as pessoas não lhe dão muita importância, baixam a guarda e, de modo semelhante ao que ocorre com a técnica de fingir que fala mal o inglês, elas acabam por fornecer pistas relevantes para alimentarem as células cinzentas.

É o que ocorre em A Aventura do Pudim de Natal, quando Poirot descreve a si mesmo em alta conta com a maior naturalidade, inclusive concluindo que ninguém duvida ser ele um detetive famoso:

E, com um pequenino arranjo, eu também sou convidado para o Natal. A tal jovem supostamente acaba de sair do hospital. Ao chegar aqui, está bem melhor. Mas depois chega a notícia de que eu viria também, um detetive — um detetive famoso. Na mesma hora ela tem uma recaída. Esconde o rubi no primeiro lugar que lhe vem à mente

Mas, aqui entre nós, não é bem que Poirot não seja presunçoso e apenas finja que é. Sabemos muito bem que nosso querido detetive tem a si mesmo em altíssima conta, e, sim, se considera o maior detetive de mundo. Porem, sua inteligência é tanta que ele também tem total consciência disso – e simplesmente utiliza sua própria característica em seu favor. Genial!


2- Para obter informações das pessoas:


A) Contar mentirinhas


A longo prazo, através de uma mentira ou através da verdade, as pessoas acabam por se trair. (Poirot em Depois do Funeral)


Peter Ustinov como Hercule Poirot


Em outras ocasiões, ainda, Poirot mente, com poucos pudores. Seu objetivo é alcançar a verdade, os fatos, as pistas tão preciosas para que possa movimentar as engrenagens de suas células cinzentas. E, se uma mentirinha aqui, outra ali, ou um pequeno engodo qualquer forem necessários para alcançar seu objetivo, tudo bem.

É o que ocorre, por exemplo, em Os Quatro Grandes, quando Hastings declara:

Às vezes, Poirot emprega uma maneira de falar tão peculiar, que é praticamente impossível saber se ele está brincando ou se está falando sério.

Poirot, depois de tantos anos, contou para o amigo que possuía um irmão, chamado Achille Poirot, o qual teria nascido no mesmo dia que ele. Gêmeos! – exclamou Hastings, para então descobrir que Poirot havia simplesmente inventado tal irmão.

Outro exemplo, é o que acontece em Poirot perde uma cliente:

A enfermeira Carruthers era uma mulher de meia-idade, de
aspecto sério, diante da qual Poirot apresentou-se em novo papel,
e com outro parente fictício. Queria uma enfermeira para tratar da
mãe velhinha...

O detetive inventa que tem uma mãe idosa, a qual precisa de uma enfermeira como acompanhante, com o propósito de investigar algumas enfermeiras sem levantar suspeitas.


B) Envolver as pessoas para que falem naturalmente

Isto mostra, Madame, os perigos da conversa. Tenho profunda crença em que se pode induzir uma pessoa a falar por muito tempo, sobre qualquer assunto que seja, que mais cedo ou mais tarde elas acabarão revelando as coisas. (Poirot em Depois do Funeral)



David Suchet como Hercule Poirot


Já sabemos que o que pode melhor alimentar as células cinzentas são informações. Fidedignas, é claro. Mas as pessoas em geral ou temem falar com os investigadores, ainda que sejam inocentes, ou simplesmente não gostam de falar sobre qualquer coisa pessoal com estranhos. E Poirot se encaixa nos dois casos: é um detetive e é uma pessoa estranha – em todos os sentidos, diga-se.

Porém, Poirot usa de suas habilidades para conseguir que as pessoas, mesmo aquelas que acabaram de lhe conhecer, falem. E falem tudo o que ele deseja saber. Com profundo conhecimento da natureza humana, Poirot percebe em pouco tempo como envolver a pessoa, nota alguma fraqueza sua, alguma forma de lhe atingir com sutileza, de ganhar-lhe a confiança para que baixe suas guardas e revele os fatos livremente.

É o que ocorre em O Assassinato de Roger Ackroyd, quando Caroline se deixa envolver por Poirot, contando-lhe tudo que desejava saber, e é criticada por isso:


– Constitui um grande alívio ter alguém a quem contar os próprios desgostos.
- É possível - observei. - Com a condição, porém, de fazê-lo espontaneamente. Agora deixar que nos arranquem confidências é outra questão.


David Suchet como Hercule Poirot


Às vezes ele se faz de terno conselheiro, encarando o famoso papá Poirot, ou uma figura mais velha e amigável, um homem gentil e sorridente.

No outro dia, Miss Ackroyd, quando estávamos sentados em torno da mesa, supliquei-lhe que fosse franca comigo. O que não se quer dizer ao papá Poirot, ele acabará por descobrir. (O Assassinato de Roger Ackroyd)

Em outras, sabe como fazer as perguntas certas ou os comentários certeiros. Ou simplesmente demonstra empatia e compreensão, incentivando a pessoa a falar, ainda que na verdade, não concorde com absolutamente nada!

É o que ocorre em Poirot perde uma cliente, quando a Srª Lawson falava de um fantasma que havia se materializado em sua frente e Poirot, que não acredita em fantasmas de jeito nenhum, simplesmente concordava amigavelmente com tudo que a mulher lhe contava:

Naquela última noite, registraram-se fenômenos bem nítidos. Na
verdade, iniciou-se uma materialização. Ectoplasma... Sabe,
talvez, o que seja ectoplasma?

— Sim, sim. Conheço sua natureza.

— Como o senhor sabe, sai como uma fita da boca do
médium, e assume uma forma. Agora estou convencida, Sr. Poirot,
que a Srta. Arundell era médium, embora não o soubesse.
Naquela noite, vi perfeitamente a querida Srta. Arundell deixar
sair pela boca uma fita luminosa, que em pouco tempo formou
uma auréola sobre a sua cabeça.

— Interessantíssimo!


SERÁ QUE OS MEIOS JUSTIFICAM OS FINS ?

Para Hercule Poirot, a resposta é: Sim! 

Seu objetivo maior era descobrir a verdade. Acreditava que através dela a justiça seria feita: o mistério seria desvendado, o crime solucionado, o culpado condenado e a vitima poderia descansar em paz. Enfim: a ordem seria restituída e a vida voltaria à normalidade. E as mentitinhas, falsetas, pequenos artifícios para enganar as pessoas, seriam ou esquecidos, ou aclamados como genialidade de um detetive muito esperto!





sexta-feira, 27 de março de 2015

Agatha & Fashion - VESTIDA PARA MORRER


Quando as roupas e os hábitos de moda de uma época servem como pista fundamental para a solução do crime.


Emma Williams como Rubby Keene em Um Corpo na Biblioteca
- episódio da série Marple (1984)


Em Um Corpo na Biblioteca, uma estória com Miss Marple, Henry Clithering falou assim para Conway Jefferson:

— Lá, no salão, junto à terceira coluna à esquerda, está assentada uma senhora idosa, com uma fisionomia tranquila e plácida de solteirona e uma mente que penetra as profundezas da iniquidade humana e as revela à luz do dia. Chama-se Miss Marple.

Ele não poderia estar mais certo!

O conhecimento que a esperta velhinha possui da natureza humana sempre auxilia nas investigações, e, na estória de Um Corpo na Biblioteca, um conhecimento em especial se torna decisivo para a resolução do caso: os costumes sociais daquela época sobre o modo de se vestir.




O VESTIDO ESTAVA TODO ERRADO!




Joan Hickson como Miss Marple em cena de Um Corpo na Biblioteca


Quando Miss Marple viu o corpo da jovem assassinada no chão da biblioteca, uma das coisas que lhe chamou a atenção e causou estranheza foi o vestido que a jovem estava usando quando foi assassinada:

— Oh, sim! Havia o vestido. O vestido estava todo errado! — respondeu Miss Marple energicamente.(...)  – O vestido era velho e eu pude ver por mim mesma que estava surrado e rasgado. Ora, tudo isso é anormal.

Bem, não há nada de anormal em uma jovem dançarina ainda tentando ganhar a vida como Ruby Keene usar um vestido velho, meio surrado e rasgado, e Miss Marple sabia bem disso. Seu estranhamento se fundamentou em outro motivo, algo mais sutil, relativo tanto aos hábitos de uma jovem apaixonada como a uma questão social.

Tão sutil que os pobres Inspetores Clithering e Jefferson não faziam a menor ideia, e, consequentemente, não perceberam a ótima pista bem debaixo de seus narizes. Mas, para Miss Marple, a pista do vestido todo errado estava reluzente como um letreiro de neon!



NÃO QUERO SER ESNOBE, MAS TENHO PARA MIM 

QUE SEJA INEVITÁVEL




Capa da edição da Penguin de Um Corpo na Biblioteca


Primeiro, Miss Marple notou um fato que, convenhamos, permanece o mesmo nos dias de hoje: Ruby Keene saíra para se encontrar com um rapaz por quem estava apaixonada.

— Acho que teria usado o melhor que tivesse. É assim que fazem as moças. – disse Miss Marple.

Ora, numa situação dessas, a última coisa que uma moça faria, seja naquela época, seja atualmente, era colocar um vestido velho e surrado!

Em segundo lugar, a teoria do vestido todo errado de Miss Marple, e sobre a qual os policiais não se deram conta, é reforçada por um motivo de ordem social.

Trata-se do seguinte: mesmo temendo parecer esnobe, Miss Marple aponta para as diferenças nos hábitos e costumes daquela época entre as moças da sociedade ou moças da classe alta e as moças das classes mais simples, como era o caso de Ruby Keene. Explica a esperta velhinha:

— Muito sensato seria vestir calças compridas e um pullover. É isso, naturalmente (não quero ser esnobe, mas tenho para mim que seja inevitável), o que faria uma moça...de nossa classe. Uma moça bem educada.




RUBY, NATURALMENTE, NÃO ERA UMA MOÇA DA SOCIEDADE




Emma Williams como Rubby Keene, Tara Fitzgerald como Adelaide Jefferson e Ian Richardson como Conway Jefferson em Um Corpo na Biblioteca - episódio da série Marple (1984)



Como nos conta Miss Marple, uma moça bem educada é muito cuidadosa ao escolher a roupa certa para cada ocasião, e se sentiria ridícula usando uma roupa arrumada demais em locais informais.

Porém, segundo Miss Marple, uma moça simples como Ruby não tinha, a princípio, noção de como se vestir adequadamente, Pelo contrário: Ruby usaria seu melhor vestido, ainda que ele fosse completamente inadequado para o local e a ocasião, sem se dar conta de que estava fazendo um papel ridículo:

— Ruby, naturalmente, não era moça da sociedade ou, para falar de modo mais claro, Ruby não era uma senhora. Pertencia à classe que usa qualquer vestido para qualquer ocasião.

E, como faz parte do método de investigação de Miss Marple, ela faz uma comparação entre o caso e alguma reminiscência sua de outra ocasião parecida:

— Era curioso observar o vestido que as moças usavam. Roupas de fular, sapatos de verniz chapéus bem trabalhados. Para escalar rochas, tojos e urzes. E os jovens com seus melhores ternos!



TODO CONHECIMENTO É VÁLIDO PARA SOLUCIONAR UM CRIME

 - INCLUSIVE MODA!



Joan Hickson como Miss Marple e Gwen Watford como  Dolly em Um Corpo na Biblioteca - episódio da série Marple (1984)


Com estas observações aparentemente simples sobre moda, vestimentas, hábitos e costumes, Miss Marple aponta para uma pista vital para a solução do caso: o vestido todo errado da moça assassinada. E, de quebra, ainda nos fornece informações interessantes sobre alguns dos costumes sociais daquela época no tocante à moda e vestimentas.

Agatha Christie também é fashion!

Moda também é cultura!


E os costumes sociais sobre o uso de um simples vestido podem resolver um intrincado caso de assassinato!