domingo, 18 de maio de 2014

O Método Christie - OS INVISÍVEIS MUITO BEM VISTOS POR DE AGATHA CHRISTIE


OS INVISÍVEIS


O jardineiro, no episódio de Depois do Funeral (2006) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot

Você saía tranquilamente da estação de metrô ou de uma agência bancária quando foi repentinamente abordado por alguns policiais. Muito sério e preocupado, o investigador de polícia lhe pede o favor de ajudar em um caso urgente e solicita que você descreva ali mesmo, com o máximo de detalhes possível, o faxineiro que limpava o chão da plataforma onde você acabou de saltar ou descrever o rosto do terceiro vigilante à esquerda, dentro do banco onde você acabou de fazer um saque. Trata-se de um caso de vida ou morte! Você entra em pânico: apesar de ser uma pessoa observadora e especialmente de ser um grande fã dos livros de Agatha Christie, você simplesmente não consegue se lembrar dos rostos daquelas pessoas!

Bem, foi a própria Agatha Christie que disse certa vez aquilo que todos nós já sabemos e que permanece sendo uma verdade, inclusive aqui no Brasil: 


Praticamente ninguém nota aquelas pessoas cujo ofício é o de nos servir cotidianamente.


A copeira, no episódio Cipreste Triste (2003) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot



A ÉPOCA DO "CADA UM EM SEU DEVIDO LUGAR"


Agatha Christie escreveu em uma época na qual muitas famílias ainda possuíam equipes de empregados domésticos, os quais mantinham as suas casas funcionando a contento. Ambientadas em respeitáveis vilas do interior ou em mansões vitorianas, ou ainda em hotéis luxuosos, trens, navios, clubes exclusivos e outros locais habitualmente frequentados pelas classes média e alta da época, as estórias da Rainha do Crime frequentemente apresentam em seu pano de fundo um staff de toda sorte: criados particulares, mordomos, cozinheiras, jardineiros, arrumadeiras, governantas, babás, garçons, copeiros, motoristas, ajudantes e serviçais variados. Quem não conhece Miss Felicity Lemon, a eficiente secretária de Hercule Poirot?

Todavia, diferente do que acontece com Miss Lemon, que ganhou personalidade e importância na mesma medida em que seu 2º patrão foi acumulando fama (seu patrão antes de Poirot era o detetive Parker Pyne! Leia artigo deste blog sobre os caminhos cruzados dos dois detetives em: http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2014/01/last-but-not-least-caminhos-cruzados.html), os outros membros da classe trabalhadora servil nas estórias de Agatha Christie são avistados por todos – os outros personagens e nós, os leitores – mas não recebem muita atenção, sendo geralmente ignorados.


O mordomo, no episódio Cartas na Mesa (2005) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot


O GRANDE ERRO: 
AVISTADOS POR TODOS, IGNORADOS POR TODOS


Bem, isto quando chegam a ser de fato vistos! Depois daquele sofisticado jantar na mansão dos Fulanos de Tal, depois que um grito horrível é ouvido e um corpo esfaqueado é encontrado sobre o caríssimo tapete persa da biblioteca, depois que a policia é chamada, as provas e as fotos tiradas pelo perito e o corpo removido, depois que todos se sentam confortavelmente na sala de estar para darem seus depoimentos ao investigador, nós sabemos, sem precisar que ninguém nos diga, que um ou mais empregados conseguirão remover a mancha de sangue do tapete, juntar os cacos do vaso de flores quebrado sobre a mesinha, trocar a cortina que teve um pedaço rasgado, reorganizar as revistas que foram espalhadas e recolocar em seu lugar a poltrona que havia sido empurrada para o lado.
E o que dizer daquele inacreditável criado em E Não Sobrou Nenhum (And Then There Were None, 1939), que se encontrava detido na ilha exatamente como os outros, e que, apesar das sucessivas e misteriosas mortes que iam deixando todos apavorados, continuava servindo o jantar e desempenhando outras tarefas domésticas de modo impassível?


O criado, em cena do filme "E Não Sobrou Nenhum" (1965)



MAS, CUIDADO: 

ELES TUDO VÊEM, TUDO ESCUTAM, 

TUDO SABEM!


Entretanto, isto não significa que os criados não desempenhem com frequência um papel de vital importância para as tramas. As pessoas tendem a não os notarem porque eles agem silenciosamente, entram sem fazer qualquer alarde, se posicionam nos cantos sombrios dos aposentos, e desaparecem pelas portas dos fundos ou laterais, tudo como deve ser com um típico e bem treinado serviçal vitoriano, daqueles que conhecem o seu lugar, como se diz.



A cozinheira (ocupada, na cozinha) - cena do episódio Punição para a Inocência (2007) do seriado Marple



Porém, a verdade é que as pistas que eles são capazes de fornecer são preciosíssimas, uma vez que o staff de empregados domésticos, em função de suas tarefas, veem coisas, escutam coisas, acham objetos, percebem modificações que ninguém mais vê, escuta, encontra ou nota. O bom detetive sempre leva em conta todos os empregados envolvidos, questionando tanto os serviçais eventuais externos como os criados da casa, especialmente aqueles cujas tarefas são as mais rudes ou humildes: quando o mistério está muito intrincado, é justamente neles que se pode encontrar a chave.





A copeira, no episódio Tragédia em Três Atos (2011) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot




A GRANDE JOGADA DE AGATHA CHRISTIE!



Sabendo muito bem disso, Agatha Christie fez uso de vários esquemas criativos que envolviam empregados e trabalhadores afins em suas estórias. Certa de que a classe dos serviçais passa desapercebida aos olhos dos outros personagens e deles geralmente não merecem muita atenção, Dame Agatha se utilizou do próprio senso de superioridade destes personagens, ideia comum e perfeitamente aceitável conforme os padrões culturais da época, contra eles mesmos, ou seja, para enganá-los – e a nós também!




O comissário de bordo no episódio Morte nas Nuvens (1992) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot


Em outras ocasiões, porém, alguns empregados estão fadados a um destino cruel. Por serem faladores demais, tolos demais, descuidados demais ou até mesmo eficientes demais, são os criados que se tornam vítimas nas estórias por que sabiam demais. Ou, pelo menos o assassino achou que sabiam. De qualquer forma, eles precisam ser silenciados, e a única forma que o criminoso vê é através da morte. De fato uma grande injustiça com aqueles para quem a vida não foi justa desde o princípio, pois quando finalmente sua existência é notada, o criminoso também percebe o perigo que eles representam para seus planos. Não era mesmo fácil a vida de criado nas estórias de Agatha Christie!


O policial sentinela no episódio Morte nas Nuvens (1992) da série de TV Poirot, com David Suchet como Hercule Poirot


É interessante ressaltar que os criminosos nas estórias da Dama do Mistério raramente pertenciam ao staff doméstico. Exceto, é claro, que o assassino – que não era um criado ou trabalhador serviçal de verdade – tenha se disfarçado de tanto com o intuito de cometer o seu crime sem ser notado. Afinal, ninguém vê mesmo direito um criado ou presta atenção no que um garçom ou copeiro está fazendo!


O capitão do vapor, no filme Morte no Nilo (1978) com Peter Ustinov como Hercule Poirot


Alguns exemplos deste engenho da autora são:

Atenção: ending spoiler nos exemplos abaixo!

1- Morte nas Nuvens (Death in the Clouds, 1935), onde o assassino se veste como comissário de bordo para matar a vítima sem levantar suspeitas para si;

2- Um Drinque de Cianureto (Sparkling Cyanide, 1945), no qual o assassino se veste de garçom para envenenar um copo de champanhe e silenciar sua vítima;

3- Morte no Nilo (Death on the Nile, 1937), onde a segunda vítima é a criada tímida e quem praticamente ninguém nota a presença, mas que havia visto alguma coisa e estava chantageando o assassino, o qual, por sua vez, a matou.

4- No conto Miss Marple Conta uma Estória (Miss Marple Tells a Story, 1939), uma segunda arrumadeira consegue entrar na suíte de um hotel em plena vista de todos sem que ninguém estranhe e muito menos note seu rosto em particular.

5- Em Tragédia em Três Atos (Three Act Tragedy, 1935), o assassino se disfarça de garçom para cometer seu crime sem que ninguém perceba.

Vítima em Um Drinque de Cianureto (1993)


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poirot: Bigodes & Bengala - POIROT E SEUS DIFERENTES BIGODES



OS ATORES QUE ENCARNARAM HERCULE POIROT






...  um homenzinho de aparência extraordinária. Tinha pouco mais de 1,60 cm, mas se movie com grande dignidade. Sua cabeça tinha o exato formato de um ovo, e ele sempre a inclinava um pouco para o lado. Seu bigode era muito engomado e militar. O asseio de sua vestimenta era quase inacreditável; acredito que um vestígio de poeira lhe teria causado mais dor que um ferimento à bala.


Quem não conhece a famosa descrição que o Capitão Arthur Hastings faz de Hercule Poirot? Desde o primeiro momento em que lhe somos apresentados em O Misterioso Caso de Styles (The Mysterious Affair at Styles, 1920) ficamos impressionados com sua exatidão e imediatamente formamos uma imagem mental da aparência do detetive belga que nos acompanhará para sempre.



Imagino que escalar e caracterizar um ator para representar o detetive criado por Agatha Christie não devem ser tarefas fáceis – e menos fácil ainda deve ser interpretá-lo, com todos aqueles maneirismos que complementam sua aparência extraordinária e compõem seu personagem. Alguns atores, porém, auxiliados por competentes equipes de maquiagem e figurino, conseguiram fazê-lo com maestria nas telas do cinema e da TV!





POIROT  NAS  TELAS



AUSTIN TREVOR



Surpreendentemente, o 1º Hercule Poirot nas telas não tinha bigodes e era um homem alto e muito atraente! Ele foi interpretado por Austin Trevor, em 1931, no filme Alibi, baseado na peça teatral de mesmo nome, que por sua vez tinha sido adaptada por Michael Morton do livro O Assassinato de Roger Ackroyd (The Murder of Roger Ackroyd). Certa vez, o ator disse que provavelmente foi escalado para o papel simplesmente porque conseguia fazer muito bem o sotaque francês. 

Austin Trevor voltou a fazer o detetive belga em Black Coffee (Café Preto), também em 1931, e A Morte de Lord Edgware (Lord Edgware Dies), em 1934. Curiosamente, anos mais tarde, em 1965, Austin Trevor fez um pequeno papel em Os Crimes ABC (The ABC Murders), feito pela MGM e no qual Tony Randall interpretava Hercule Poirot.




MARTIN GABEL






Em 1962, o detetive belga voltou às telas da TV em uma produção intitulada Hercule Poirot, interpretado por Martin Gabel. O episódio foi uma adaptação de O Desaparecimento de Mr. Davenheim (The Disappearance of Mr. Davenheim), produzida pelo General Electric Theater, e era o piloto de uma série semanal que nunca foi realizada. Pena...









TONY RANDALL




Devidamente caracterizado com uma peruca calva, Tony Randall encarnou Hercule Poirot em 1966 no cinema, em uma adaptação livre de Os Crimes ABC (The ABC Murders), produzida pela MGM como uma comédia – e não exatamente nos moldes dos livros de Agatha Christie.











ALBERT FINNEY




Um dos mais celebrados Poirots, Albert Finney encarnou o detetive em 1974 no igualmente badalado filme O Expresso do Oriente, produção da EMI, uma adaptação fiel do livro de Agatha Christie e que contou com sua aprovação. Albert Finney foi o único ator a interpretar Hercule Poirot que recebeu uma indicação ao Oscar pelo mesmo papel na época, embora não tenha ganhado a estatueta. Alguns idolatram sua interpretação do detetive, outros a consideram por demais caricata, mas há consenso em se considerar sua caracterização física e figurino como obras primas.






PETER USTINOV


Reza a lenda que Rosalind Hicks, a filha de Agatha Christie, observando Peter Ustinov durante um ensaio, teria dito: Este não é Poirot! Ele não se parece nada com isso! Então Ustinov, escutando aquilo, simplesmente teria afirmado: Ele é agora!

Grande, corpulento, cabelos e bigodes grisalhos e naturais – e não baixinho, cabelos pretos ordeiramente penteados com gel e bigodes igualmente pretos, duros e pontudos – o ganhador de dois Oscars, Peter Ustnov não se parece mesmo nada com o Poirot descrito nos livros. Todavia, seu talento em capturar a essência e a personalidade do detetive fez com que fosse aclamado pelo público e pela crítica nos seis filmes em que interpretou o detetive. Foram eles, para o cinema: Morte no Nilo (Death on the Nile), em 1978, produção da EMI; Morte na Praia (Evil Under the Sun), em 1982, da Universal; Encontro com a Morte (Appointment With Death), em 1988, da EMI; e para a TV, produzidos pela Warner Brothers: Treze à Mesa (Thirteen at Dinner), em 1985; A Extravagância do Morto (Dead Man's Folly), em 1986; e Assassinato em Três Atos (Murder in Three Acts), em 1986.





ALFRED MOLINA


O filme O Expresso do Oriente, de 2001, transmitido na TV pela CBS, recebeu atributivos como sacrilégio e um horror. A pergunta que não quer calar-se na mente dos fãs e críticos é: Pelos bigodes de Poirot! Depois do filme de 1974, que beirou a perfeição e foi um estrondoso sucesso, e entre todas as estórias com o detetive para serem adaptadas, por que escolher justamente este mesmo roteiro?! 

Nesta nova versão, Hercule Poirot, interpretado por Alfred Molina, vive no século 21 e usa não apenas suas células cinzentas biológicas, mas também as de silício, procurando pistas em seu laptop. Alfred Molina é uma ótima ator e seu trabalho como Poirot é bom. Todavia, o ator ficou injustamente estigmatizado como um dos piores Poirots em função do roteiro, que, sim, é um sacrilégio, um horror, péssimo!




DAVID SUCHET


Que pena que Agatha Christie nunca tenha assistido a David Suchet encarnado seu famoso detetive! Muitos acreditam que sua interpretação de Hercule Poirot é insuperável e definitiva. Mathew Prichard, neto de Agatha Christie, declarou que a caracterização visual de Suchet é a mais convincente de todas. Além disso, o ator também conseguiu transmitir ao expectador a exata medida daquela irritação típica da qual sofrem os perfeccionistas, como é o caso de Poirot.
Durante 25 anos fomos brindados com o talento do maravilhoso David Suchet na pele de Hercule Poirot, através da transmissão dos episódios pelo canal de TV ITV, começando em 1988 e terminado em grande estilo, em junho de 2013, com um Poirot idoso e em cadeiras, de rodas no episódio final Curtain (Cai o Pano). David Suchet declarou então que ninguém poderia imaginar que a série se prolongaria por ¼ de século. Quanto a mim, quase 1 anos após seu encerramento, ainda não consigo acreditar que já tenha terminado!





HOMENAGEM ESPECIAL:

CHARLES LAUGHTON


Embora este artigo vise aos atores que interpretaram Hercule Poirot nas telas – uma vez que nos palcos há dezenas, quiçá centenas deles! – eu não poderia deixar de mencionar Charles Laughton, o primeiro Hercule Poirot no teatro, em 1928, na peça Alibi. Laughton foi o primeiro ator britânico a ganhar o Oscar de melhor ator por um filme britânico, Os Amores de Henrique VIII. Em 1950, porém, se naturalizou norte-americano, e, além de ator, também foi roteirista, diretor e produtor cinematográfico, possuindo hoje uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood.  





OUTRAS VERSÕES de POIROT :


POIROT em DESENHO ANIMADO




KOTARO SATOMI

Que tal um Hercule Poirot Japonês? Kotaro Satomi interpreta o detetive de Agatha Christie, mas lhe empresta somente sua voz ao dublá-lo nos 39 episódios do desenho animado produzido pelo Oriental Light and Magic Studio, entre 2004 e 2005, e transmitidos pelo canal de TV NHK. Livremente baseado na obra da Rainha do Crime, o anime ou mangá criou uma ligação entre Hercule Poirot e Miss Jane Marple: a sobrinha neta de Miss Marple, Mabel West, torna-se a assistente Junior de Poirot, e juntos eles passam por várias aventuras investigando crimes. Bem legal para se assistir em família com as crianças.







IAN HOLM


Poirot morreu! Sim, já sabemos que Agatha Christie põe um fim nas aventuras do detetive belga em Curtain (Cai o Pano), escrito em 1940, mas somente publicado em 1975. Mas, qual não foi o susto que Agatha levou quando, às vésperas da publicação da estória final de seu detetive, o próprio Hercule Poirot aparece à sua porta para investigar o assassinato iminente de ... si mesmo?! Este é o roteiro do filme para a TV de 1986, Murder by the Book, que é naturalmente uma comédia, e traz Ian Holm no papel do detetive, muito bem caracterizado.







ANDEW SACHS


Nascido em Berlin, na Alemanha, em 1930, Andrew Sachs interpreta a versão de Hercule Poirot para a comédia norte-americana A Vingança da Pantera Cor de Rosa, de 1978.






DUDLEY JONES


Se eles reuniram famosos como Henry Kissinger, Gerald Ford, Sherlock Holmes, Dr. Watson, Morriaty, Columbo, entre outros, por que não convidar também Hercule Poirot? Interpretado por Dudley Jones, a versão estereotipada do detetive belga participa da comédia de 1977, The strange case of the end of civilization as we know it (O estranho caso do fim da civilização como a conhecemos), que até vale a pena ser assistida em função da ironia política que contém.



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Para ver trechos dos filmes com alguns dos Poirots deste artigo: 










segunda-feira, 12 de maio de 2014

ENTRE ASPAS - Dia das Mães


AGATHA CHRISTIE: 

A MÃE, A FILHA, A AVÓ.


Especial: Dia das Mães



Pensando no dia das mães e em Agatha Christie, a 1ª coisa que me vem à lembrança é uma famosa frase sua, extraída do conto A Última Sessão (The Last Séance, 1926), que consegue definir o amor de mãe com toda a propriedade:
O amor de uma mãe por seu filho não se assemelha a nenhuma outra coisa no mundo. Ele não conhece qualquer lei nem piedade. Ele ousa fazer todas as coisas e esmaga sem remorsos tudo o que se interpor em seu caminho.

NÃO QUERO SER UM BRAVO SOLDADO!


Clarisse Miller, mãe de Agatha Christie
A Rainha do Crime foi uma boa filha. Sempre fala com muito carinho e admiração de sua mãe, e todos sabemos que se mudou para ficar com ela e cuidar dela em seus últimos dias de doença e sofrimento. A importância de Clarisse Miller para Agatha Christie – e talvez a própria Agatha não tenha se dado conta disso – é tanta que, conforme narra na Autobiografia, é sua mãe quem protagoniza sua primeira lembrança, ainda na Introdução, nesta divertida passagem onde podemos ver a menininha Agatha apenas sete aninhos:

A primeira lembrança que surge na minha memória é uma visão-clara de mim mesma caminhando pelas ruas de Dinard em dia de feira, com minha mãe. Um moço que carregava um grande cesto, cheio de variadas coisas, esbarrou violentamente em mim, machucando um pouco meu braço e quase me jogando ao chão. Meu braço doeu.  Comecei a chorar. Creio que tinha então aproximadamente sete anos de idade. Minha mãe, que  gostava  de  comportamentos  estóicos  em lugares públicos, chama minha atenção:
“Pense”, diz  ela,  “em  nossos  bravos  soldados  na  África  do
Sul!”
Respondi, indignada:  “Não  quero  ser  um  bravo  soldado. Quero ser uma covarde!”

A ETERNA DÚVIDA DAS MÃES


Agatha Christie com sua filha Rosalind
O tempo passou e Agatha Christie tornou-se a mãe de Rosalind, de quem cuidou com todo amor e com todas as preocupações, como fazem todas as boas mães, a qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo. E também como todas as boas mães, nossa querida escritora não foi poupada dos sentimentos de culpa, das dúvidas e da inseguranças ao criar seus filhos, sempre  se perguntando se as coisas que fez ou disse foram as certas e se a forma como agiu foi mesmo a melhor para eles:

Penso que posso ter errado, que a melhor coisa a fazer para ajudar Rosalind teria  sido  falar  o  menos  possível  e continuar vivendo como habitualmente. Acho que essa teria sido minha reação.  Teria gostado que  não  falassem  comigo  nem comentassem  esse  doloroso  assunto.  Espero que meu modo de agir também tenha sido confortador para ela, mas nunca podemos saber o que se passa no íntimo de outra pessoa. Talvez tivesse sido mais fácil para ela se eu fosse uma mãe do tipo decidido, que a convencesse a desabafar e a consolasse. O instinto pode não ser infalível. Nosso maior desejo é  não  ferir  a  pessoa  que  amamos muito — não fazer nada que seja ruim para ela! Eu sentia que deveria saber o que fazer, mas nunca se pode ter certeza.

AFLIÇÕES DE AVÓ


Agatha Christie com seu neto Mathew
Quando Rosalind lhe deu seu neto, Mathew Prichard, Agatha Christie ficou contentíssima. Mas os tempos não eram de alegrias, mas sim de preocupações terríveis com a guerra e temor pela vida dos entes queridos. Agatha vivenciou toda a preocupação não apenas pela vida de sua filha e de seu pequeno neto, mas também pela terrível aflição que Rosalind experimentava, sendo uma jovem mãe:

Quando soava o alarme, empurrávamos Mathew, em seu carrinho, para baixo de uma sólida mesa de papier mâché, com um grosso tampo de vidro, por ser o móvel mais pesado sob o qual podíamos colocá-lo. Era angustiante para uma jovem mãe, e eu desejava ardentemente ter de volta a Winterbrook ou a Greenway House.


Porém, o destino os poupou, a guerra acabou, o tempo passou, e Agatha Christie pode experimentar bons e felizes momentos em companhia de sua família, de sua filha e de seu neto, como muito bem merecem todas as mães zelosas.


PARABÉNS A TODAS AS MÃES!
EM ESPECIAL ÀS MAMÃES QUE SÃO FÃS
DE AGATHA CHRISTIE!



domingo, 4 de maio de 2014

Notícias & Novidades - LIVROS ESPALHADOS PELA CIDADE


PARA LER, SENTA-SE, APRENDER, ADMIRAR

 
Banco-Livro em Londres, Inglaterra
 
É um livro?       É um banco de praça?      É uma obra de arte?
Sim, sim e sim!
E é também muito mais do que isso: é uma ideia genial!

Está em andamento na Inglaterra o projeto Books about Town (http://www.booksabouttown.org.uk/), que inaugurará a partir de julho de 2014 em Londres dezenas de bancos de praça especiais. Os bancos foram criados no formato de um livro aberto e estão sendo individualmente decorados e pintados por artistas famosos, com ilustrações exclusivas. O tema das pinturas são unicamente estórias ligadas à capital inglesa e o objetivo do projeto é o de promover a leitura, a cultura e o divertimento. E também, é claro, homenagear alguns dos grandes autores literários de todos os tempos.
 

TUDO COMEÇA COM UMA BOA IDEIA


 
Este maravilhoso projeto está sendo gerenciado pelo National Literacy Trust, uma instituição de caridade dedicada a elevar o nível de escolaridade e gosto pela literatura e pela cultura na Inglaterra e a fazer disso uma prioridade para os políticos e pais (Ainda mais? Que ótimo! E que possa inspirar empresários brasileiros a fazer o mesmo!) em parceria com a Wild in Art, líder mundial em produção de eventos artísticos espetaculares (produziu a Batida de Rinocerontes, em São Paulo). Ao final do verão europeu de 2014, todos os bancos serão leiloados para angariação de fundos.

Entre os autores celebrados no projeto Books about Town encontram-se os seguintes e suas obras famosas mundialmente:

J.K. Rowling, criadora de Harry Potter;

Ted Hughs, criador do Iron Man;

Charles Dickens, autor de Grandes Expectativas, Oliver Twist, Um Conto de Natal, David Copperfield, etc.;

J. M. Barrier, criador de Peter Pan;

Jules Verne, autor de Volta ao Mundo em 80 Dias;

William Shakespeare, dispensa comentários;

P. L. Travers, criador de Mary Poppins;

Helen Fielding, ciradora de Bridget Jones;

Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes;

Edgar Allan Poe, autor de Contos Extraordinários;

Oscar Wilde, autor de O Retrato de Doryan Grey;

Chaucer, um dos maiores poetas ingleses;

Audols Huxley, auto de Admirável Mundo Novo;

Mary Shelley, criadora de Frankstein;

George Bernard Shaw, autor de My Fair Lady;

Virginia Wolfe, criadora de Mrs. Dalloway;

entre muitos outros, além dos ensaístas e autores de trabalhos não ficcionais, porém igualmente ligados a Londres, como:

Charles Darwin, autor de  Sobre a Origem das Espécies;

Voltaire, autor de Cartas sobre a Nação Inglesa;

Sigmund Freud, autor de A Interpretação dos Sonhos;

Stephen Hawking, autor de Uma Breve História do Tempo;

entre outros. Todos eles terão um banco-livro especialmente pintado em sua honra e de sua contribuição para a ciência e para a cultura mundial, em especial, por sua relação com a cidade de Londres.
 

HUM..., NÃO ESTARIA FALTANDO AGUÉM?
 
Capa original criada por Tom Adams para a obra Hercule Poirot & the Greenshore Folley (1954)
 
Mas, você por acaso não sentiu a falta de um nome nesta lista de seletos escritores? Sim, está faltando ela, nossa venerada Rainha do Crime! É claro que Agatha Christie não poderia ficar de fora.

A artista Mandii Pope já está trabalhando sobre o banco-livro que homenageará Agatha Christie e o detetive Hercule Poirot, com base em sua obra O Tolo de Greenshore (The Greenshore Folley, 1954) e na capa original do livro criada por Tom Adams. O mais bacana é que o trabalho de Mandii Pope pode ser observado dia a dia através da página do Facebook:


Mas, para lhe poupar o trabalho, aqui estão algumas fotos deste trabalho. Estamos aguardando ansiosos pelo seu término!

A artista Mandii Pope trabalhando no banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie



Vista lateral do trabalho em andamento de Mandii Pope com o banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie



Vista frontal do trabalho em andamento de Mandii Pope com o banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie


Simulação de como ficará o banco-livro em homenagem à Agatha Christie.