quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poirot: Bigodes & Bengala - POIROT E SEUS DIFERENTES BIGODES



OS ATORES QUE ENCARNARAM HERCULE POIROT






...  um homenzinho de aparência extraordinária. Tinha pouco mais de 1,60 cm, mas se movie com grande dignidade. Sua cabeça tinha o exato formato de um ovo, e ele sempre a inclinava um pouco para o lado. Seu bigode era muito engomado e militar. O asseio de sua vestimenta era quase inacreditável; acredito que um vestígio de poeira lhe teria causado mais dor que um ferimento à bala.


Quem não conhece a famosa descrição que o Capitão Arthur Hastings faz de Hercule Poirot? Desde o primeiro momento em que lhe somos apresentados em O Misterioso Caso de Styles (The Mysterious Affair at Styles, 1920) ficamos impressionados com sua exatidão e imediatamente formamos uma imagem mental da aparência do detetive belga que nos acompanhará para sempre.



Imagino que escalar e caracterizar um ator para representar o detetive criado por Agatha Christie não devem ser tarefas fáceis – e menos fácil ainda deve ser interpretá-lo, com todos aqueles maneirismos que complementam sua aparência extraordinária e compõem seu personagem. Alguns atores, porém, auxiliados por competentes equipes de maquiagem e figurino, conseguiram fazê-lo com maestria nas telas do cinema e da TV!





POIROT  NAS  TELAS



AUSTIN TREVOR



Surpreendentemente, o 1º Hercule Poirot nas telas não tinha bigodes e era um homem alto e muito atraente! Ele foi interpretado por Austin Trevor, em 1931, no filme Alibi, baseado na peça teatral de mesmo nome, que por sua vez tinha sido adaptada por Michael Morton do livro O Assassinato de Roger Ackroyd (The Murder of Roger Ackroyd). Certa vez, o ator disse que provavelmente foi escalado para o papel simplesmente porque conseguia fazer muito bem o sotaque francês. 

Austin Trevor voltou a fazer o detetive belga em Black Coffee (Café Preto), também em 1931, e A Morte de Lord Edgware (Lord Edgware Dies), em 1934. Curiosamente, anos mais tarde, em 1965, Austin Trevor fez um pequeno papel em Os Crimes ABC (The ABC Murders), feito pela MGM e no qual Tony Randall interpretava Hercule Poirot.




MARTIN GABEL






Em 1962, o detetive belga voltou às telas da TV em uma produção intitulada Hercule Poirot, interpretado por Martin Gabel. O episódio foi uma adaptação de O Desaparecimento de Mr. Davenheim (The Disappearance of Mr. Davenheim), produzida pelo General Electric Theater, e era o piloto de uma série semanal que nunca foi realizada. Pena...









TONY RANDALL




Devidamente caracterizado com uma peruca calva, Tony Randall encarnou Hercule Poirot em 1966 no cinema, em uma adaptação livre de Os Crimes ABC (The ABC Murders), produzida pela MGM como uma comédia – e não exatamente nos moldes dos livros de Agatha Christie.











ALBERT FINNEY




Um dos mais celebrados Poirots, Albert Finney encarnou o detetive em 1974 no igualmente badalado filme O Expresso do Oriente, produção da EMI, uma adaptação fiel do livro de Agatha Christie e que contou com sua aprovação. Albert Finney foi o único ator a interpretar Hercule Poirot que recebeu uma indicação ao Oscar pelo mesmo papel na época, embora não tenha ganhado a estatueta. Alguns idolatram sua interpretação do detetive, outros a consideram por demais caricata, mas há consenso em se considerar sua caracterização física e figurino como obras primas.






PETER USTINOV


Reza a lenda que Rosalind Hicks, a filha de Agatha Christie, observando Peter Ustinov durante um ensaio, teria dito: Este não é Poirot! Ele não se parece nada com isso! Então Ustinov, escutando aquilo, simplesmente teria afirmado: Ele é agora!

Grande, corpulento, cabelos e bigodes grisalhos e naturais – e não baixinho, cabelos pretos ordeiramente penteados com gel e bigodes igualmente pretos, duros e pontudos – o ganhador de dois Oscars, Peter Ustnov não se parece mesmo nada com o Poirot descrito nos livros. Todavia, seu talento em capturar a essência e a personalidade do detetive fez com que fosse aclamado pelo público e pela crítica nos seis filmes em que interpretou o detetive. Foram eles, para o cinema: Morte no Nilo (Death on the Nile), em 1978, produção da EMI; Morte na Praia (Evil Under the Sun), em 1982, da Universal; Encontro com a Morte (Appointment With Death), em 1988, da EMI; e para a TV, produzidos pela Warner Brothers: Treze à Mesa (Thirteen at Dinner), em 1985; A Extravagância do Morto (Dead Man's Folly), em 1986; e Assassinato em Três Atos (Murder in Three Acts), em 1986.





ALFRED MOLINA


O filme O Expresso do Oriente, de 2001, transmitido na TV pela CBS, recebeu atributivos como sacrilégio e um horror. A pergunta que não quer calar-se na mente dos fãs e críticos é: Pelos bigodes de Poirot! Depois do filme de 1974, que beirou a perfeição e foi um estrondoso sucesso, e entre todas as estórias com o detetive para serem adaptadas, por que escolher justamente este mesmo roteiro?! 

Nesta nova versão, Hercule Poirot, interpretado por Alfred Molina, vive no século 21 e usa não apenas suas células cinzentas biológicas, mas também as de silício, procurando pistas em seu laptop. Alfred Molina é uma ótima ator e seu trabalho como Poirot é bom. Todavia, o ator ficou injustamente estigmatizado como um dos piores Poirots em função do roteiro, que, sim, é um sacrilégio, um horror, péssimo!




DAVID SUCHET


Que pena que Agatha Christie nunca tenha assistido a David Suchet encarnado seu famoso detetive! Muitos acreditam que sua interpretação de Hercule Poirot é insuperável e definitiva. Mathew Prichard, neto de Agatha Christie, declarou que a caracterização visual de Suchet é a mais convincente de todas. Além disso, o ator também conseguiu transmitir ao expectador a exata medida daquela irritação típica da qual sofrem os perfeccionistas, como é o caso de Poirot.
Durante 25 anos fomos brindados com o talento do maravilhoso David Suchet na pele de Hercule Poirot, através da transmissão dos episódios pelo canal de TV ITV, começando em 1988 e terminado em grande estilo, em junho de 2013, com um Poirot idoso e em cadeiras, de rodas no episódio final Curtain (Cai o Pano). David Suchet declarou então que ninguém poderia imaginar que a série se prolongaria por ¼ de século. Quanto a mim, quase 1 anos após seu encerramento, ainda não consigo acreditar que já tenha terminado!





HOMENAGEM ESPECIAL:

CHARLES LAUGHTON


Embora este artigo vise aos atores que interpretaram Hercule Poirot nas telas – uma vez que nos palcos há dezenas, quiçá centenas deles! – eu não poderia deixar de mencionar Charles Laughton, o primeiro Hercule Poirot no teatro, em 1928, na peça Alibi. Laughton foi o primeiro ator britânico a ganhar o Oscar de melhor ator por um filme britânico, Os Amores de Henrique VIII. Em 1950, porém, se naturalizou norte-americano, e, além de ator, também foi roteirista, diretor e produtor cinematográfico, possuindo hoje uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood.  





OUTRAS VERSÕES de POIROT :


POIROT em DESENHO ANIMADO




KOTARO SATOMI

Que tal um Hercule Poirot Japonês? Kotaro Satomi interpreta o detetive de Agatha Christie, mas lhe empresta somente sua voz ao dublá-lo nos 39 episódios do desenho animado produzido pelo Oriental Light and Magic Studio, entre 2004 e 2005, e transmitidos pelo canal de TV NHK. Livremente baseado na obra da Rainha do Crime, o anime ou mangá criou uma ligação entre Hercule Poirot e Miss Jane Marple: a sobrinha neta de Miss Marple, Mabel West, torna-se a assistente Junior de Poirot, e juntos eles passam por várias aventuras investigando crimes. Bem legal para se assistir em família com as crianças.







IAN HOLM


Poirot morreu! Sim, já sabemos que Agatha Christie põe um fim nas aventuras do detetive belga em Curtain (Cai o Pano), escrito em 1940, mas somente publicado em 1975. Mas, qual não foi o susto que Agatha levou quando, às vésperas da publicação da estória final de seu detetive, o próprio Hercule Poirot aparece à sua porta para investigar o assassinato iminente de ... si mesmo?! Este é o roteiro do filme para a TV de 1986, Murder by the Book, que é naturalmente uma comédia, e traz Ian Holm no papel do detetive, muito bem caracterizado.







ANDEW SACHS


Nascido em Berlin, na Alemanha, em 1930, Andrew Sachs interpreta a versão de Hercule Poirot para a comédia norte-americana A Vingança da Pantera Cor de Rosa, de 1978.






DUDLEY JONES


Se eles reuniram famosos como Henry Kissinger, Gerald Ford, Sherlock Holmes, Dr. Watson, Morriaty, Columbo, entre outros, por que não convidar também Hercule Poirot? Interpretado por Dudley Jones, a versão estereotipada do detetive belga participa da comédia de 1977, The strange case of the end of civilization as we know it (O estranho caso do fim da civilização como a conhecemos), que até vale a pena ser assistida em função da ironia política que contém.



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Para ver trechos dos filmes com alguns dos Poirots deste artigo: 










segunda-feira, 12 de maio de 2014

ENTRE ASPAS - Dia das Mães


AGATHA CHRISTIE: 

A MÃE, A FILHA, A AVÓ.


Especial: Dia das Mães



Pensando no dia das mães e em Agatha Christie, a 1ª coisa que me vem à lembrança é uma famosa frase sua, extraída do conto A Última Sessão (The Last Séance, 1926), que consegue definir o amor de mãe com toda a propriedade:
O amor de uma mãe por seu filho não se assemelha a nenhuma outra coisa no mundo. Ele não conhece qualquer lei nem piedade. Ele ousa fazer todas as coisas e esmaga sem remorsos tudo o que se interpor em seu caminho.

NÃO QUERO SER UM BRAVO SOLDADO!


Clarisse Miller, mãe de Agatha Christie
A Rainha do Crime foi uma boa filha. Sempre fala com muito carinho e admiração de sua mãe, e todos sabemos que se mudou para ficar com ela e cuidar dela em seus últimos dias de doença e sofrimento. A importância de Clarisse Miller para Agatha Christie – e talvez a própria Agatha não tenha se dado conta disso – é tanta que, conforme narra na Autobiografia, é sua mãe quem protagoniza sua primeira lembrança, ainda na Introdução, nesta divertida passagem onde podemos ver a menininha Agatha apenas sete aninhos:

A primeira lembrança que surge na minha memória é uma visão-clara de mim mesma caminhando pelas ruas de Dinard em dia de feira, com minha mãe. Um moço que carregava um grande cesto, cheio de variadas coisas, esbarrou violentamente em mim, machucando um pouco meu braço e quase me jogando ao chão. Meu braço doeu.  Comecei a chorar. Creio que tinha então aproximadamente sete anos de idade. Minha mãe, que  gostava  de  comportamentos  estóicos  em lugares públicos, chama minha atenção:
“Pense”, diz  ela,  “em  nossos  bravos  soldados  na  África  do
Sul!”
Respondi, indignada:  “Não  quero  ser  um  bravo  soldado. Quero ser uma covarde!”

A ETERNA DÚVIDA DAS MÃES


Agatha Christie com sua filha Rosalind
O tempo passou e Agatha Christie tornou-se a mãe de Rosalind, de quem cuidou com todo amor e com todas as preocupações, como fazem todas as boas mães, a qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo. E também como todas as boas mães, nossa querida escritora não foi poupada dos sentimentos de culpa, das dúvidas e da inseguranças ao criar seus filhos, sempre  se perguntando se as coisas que fez ou disse foram as certas e se a forma como agiu foi mesmo a melhor para eles:

Penso que posso ter errado, que a melhor coisa a fazer para ajudar Rosalind teria  sido  falar  o  menos  possível  e continuar vivendo como habitualmente. Acho que essa teria sido minha reação.  Teria gostado que  não  falassem  comigo  nem comentassem  esse  doloroso  assunto.  Espero que meu modo de agir também tenha sido confortador para ela, mas nunca podemos saber o que se passa no íntimo de outra pessoa. Talvez tivesse sido mais fácil para ela se eu fosse uma mãe do tipo decidido, que a convencesse a desabafar e a consolasse. O instinto pode não ser infalível. Nosso maior desejo é  não  ferir  a  pessoa  que  amamos muito — não fazer nada que seja ruim para ela! Eu sentia que deveria saber o que fazer, mas nunca se pode ter certeza.

AFLIÇÕES DE AVÓ


Agatha Christie com seu neto Mathew
Quando Rosalind lhe deu seu neto, Mathew Prichard, Agatha Christie ficou contentíssima. Mas os tempos não eram de alegrias, mas sim de preocupações terríveis com a guerra e temor pela vida dos entes queridos. Agatha vivenciou toda a preocupação não apenas pela vida de sua filha e de seu pequeno neto, mas também pela terrível aflição que Rosalind experimentava, sendo uma jovem mãe:

Quando soava o alarme, empurrávamos Mathew, em seu carrinho, para baixo de uma sólida mesa de papier mâché, com um grosso tampo de vidro, por ser o móvel mais pesado sob o qual podíamos colocá-lo. Era angustiante para uma jovem mãe, e eu desejava ardentemente ter de volta a Winterbrook ou a Greenway House.


Porém, o destino os poupou, a guerra acabou, o tempo passou, e Agatha Christie pode experimentar bons e felizes momentos em companhia de sua família, de sua filha e de seu neto, como muito bem merecem todas as mães zelosas.


PARABÉNS A TODAS AS MÃES!
EM ESPECIAL ÀS MAMÃES QUE SÃO FÃS
DE AGATHA CHRISTIE!



domingo, 4 de maio de 2014

Notícias & Novidades - LIVROS ESPALHADOS PELA CIDADE


PARA LER, SENTA-SE, APRENDER, ADMIRAR

 
Banco-Livro em Londres, Inglaterra
 
É um livro?       É um banco de praça?      É uma obra de arte?
Sim, sim e sim!
E é também muito mais do que isso: é uma ideia genial!

Está em andamento na Inglaterra o projeto Books about Town (http://www.booksabouttown.org.uk/), que inaugurará a partir de julho de 2014 em Londres dezenas de bancos de praça especiais. Os bancos foram criados no formato de um livro aberto e estão sendo individualmente decorados e pintados por artistas famosos, com ilustrações exclusivas. O tema das pinturas são unicamente estórias ligadas à capital inglesa e o objetivo do projeto é o de promover a leitura, a cultura e o divertimento. E também, é claro, homenagear alguns dos grandes autores literários de todos os tempos.
 

TUDO COMEÇA COM UMA BOA IDEIA


 
Este maravilhoso projeto está sendo gerenciado pelo National Literacy Trust, uma instituição de caridade dedicada a elevar o nível de escolaridade e gosto pela literatura e pela cultura na Inglaterra e a fazer disso uma prioridade para os políticos e pais (Ainda mais? Que ótimo! E que possa inspirar empresários brasileiros a fazer o mesmo!) em parceria com a Wild in Art, líder mundial em produção de eventos artísticos espetaculares (produziu a Batida de Rinocerontes, em São Paulo). Ao final do verão europeu de 2014, todos os bancos serão leiloados para angariação de fundos.

Entre os autores celebrados no projeto Books about Town encontram-se os seguintes e suas obras famosas mundialmente:

J.K. Rowling, criadora de Harry Potter;

Ted Hughs, criador do Iron Man;

Charles Dickens, autor de Grandes Expectativas, Oliver Twist, Um Conto de Natal, David Copperfield, etc.;

J. M. Barrier, criador de Peter Pan;

Jules Verne, autor de Volta ao Mundo em 80 Dias;

William Shakespeare, dispensa comentários;

P. L. Travers, criador de Mary Poppins;

Helen Fielding, ciradora de Bridget Jones;

Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes;

Edgar Allan Poe, autor de Contos Extraordinários;

Oscar Wilde, autor de O Retrato de Doryan Grey;

Chaucer, um dos maiores poetas ingleses;

Audols Huxley, auto de Admirável Mundo Novo;

Mary Shelley, criadora de Frankstein;

George Bernard Shaw, autor de My Fair Lady;

Virginia Wolfe, criadora de Mrs. Dalloway;

entre muitos outros, além dos ensaístas e autores de trabalhos não ficcionais, porém igualmente ligados a Londres, como:

Charles Darwin, autor de  Sobre a Origem das Espécies;

Voltaire, autor de Cartas sobre a Nação Inglesa;

Sigmund Freud, autor de A Interpretação dos Sonhos;

Stephen Hawking, autor de Uma Breve História do Tempo;

entre outros. Todos eles terão um banco-livro especialmente pintado em sua honra e de sua contribuição para a ciência e para a cultura mundial, em especial, por sua relação com a cidade de Londres.
 

HUM..., NÃO ESTARIA FALTANDO AGUÉM?
 
Capa original criada por Tom Adams para a obra Hercule Poirot & the Greenshore Folley (1954)
 
Mas, você por acaso não sentiu a falta de um nome nesta lista de seletos escritores? Sim, está faltando ela, nossa venerada Rainha do Crime! É claro que Agatha Christie não poderia ficar de fora.

A artista Mandii Pope já está trabalhando sobre o banco-livro que homenageará Agatha Christie e o detetive Hercule Poirot, com base em sua obra O Tolo de Greenshore (The Greenshore Folley, 1954) e na capa original do livro criada por Tom Adams. O mais bacana é que o trabalho de Mandii Pope pode ser observado dia a dia através da página do Facebook:


Mas, para lhe poupar o trabalho, aqui estão algumas fotos deste trabalho. Estamos aguardando ansiosos pelo seu término!

A artista Mandii Pope trabalhando no banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie



Vista lateral do trabalho em andamento de Mandii Pope com o banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie



Vista frontal do trabalho em andamento de Mandii Pope com o banco-livro em homenagem à obra de Agatha Christie


Simulação de como ficará o banco-livro em homenagem à Agatha Christie.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Método Christie - COMO ENGANAR O LEITOR DIREITINHO


... E SIMPLESMENTE ADORAMOS ISSO!!!


caricatura de Agatha Christie
Se Agatha Christie vivesse nos tempos atuais e resolvesse enveredar pela moda dos livros que ensinam como fazer tudo você mesmo, certamente o seu best seller teria um título parecido com: Como Enganar o Leitor com Pistas Falsas, ou Como Fazer o Mais Esperto Leitor de Bobo, ou algo parecido.

Bem, pensando melhor, Agatha Christie, que foi uma verdadeira dama e a própria gentileza, jamais aprovaria o segundo título que sugeri. Mas, cá entre nós, não é bem assim que você se sente ao final do livro, quando Hercule Poirot ou Miss Marple expõem as pistas – que estavam todas lá! – relembram os fatos – que também estavam todos lá! – e traçam um raciocínio lógico e óbvio para a solução do crime?

Ficamos todos nos perguntando: mas como eu deixei passar isso e aquilo? Ou exclamando: puxa vida, é claro! Algumas pessoas que eu conheço juram que descobriram o criminoso antes do final. Hum, bem, eu não sou uma delas – e nem nunca fui! Porém, como costumam fazer praticamente todos os leitores de Agatha Christie, acreditamos que no próximo livro vamos vencer. Afinal, a esperança é mesmo a última que morre! Mas quando o mistério vai ficando mais denso e mais intricado, quando aquele personagem que juramos que é o culpado é repentinamente assassinado, ou quando alguma reviravolta inesperada qualquer ocorre, nos vemos mais uma vez irremediavelmente emaranhados na teia cuidadosamente tecida pela Rainha do crime. E simplesmente adoramos isso!


obs: O ensaio a seguir NÃO contém ending spoiler.

Todas as fotos são puramente ilustrativas.


OS MISTÉRIOS NÃO TEM SEGREDOS

Mas como será que ela consegue? A resposta não tem mistérios: porque Agatha Christie é mestra em sua arte. E o que podemos apreender desta arte, ou seja, do método utilizado pela escritora para bolar enredos que mexem com os nervos e os neurônios dos leitores de tão ricos em mistérios? A resposta para esta pergunta também é mais simples do que se imagina.

Muitos estudiosos se debruçaram sobre a obra de Agatha Christie na tentativa de desvendar seu método de criação de estórias com mistérios intricados, e muitas análises críticas altamente interessantes – porém complexas – surgiram.

Em contrapartida, eu pretendo aqui neste artigo simplificar bastante as coisas – bem ao estilo de nossa Rainha – e destacar apenas 2 elementos cruciais em suas estórias de crime e mistério: as pistas e o culpado, e a partir deles, apontar apenas 2 aspectos basilares de seu método. 

1- AS PISTAS:

1.1 - UM SHOW DE MÁGICA

Em primeiro lugar, Agatha Christie sempre joga limpo com seus leitores. Isto significa que as pistas são sempre fornecidas; o problema é que nós é que falhamos em reconhecê-las como tal, ou seja, não damos a devida importância às pistas que, sim, nos são apresentadas.

É muito comum as pessoas chegarem ao final do livro e voltarem alguns capítulos, ou até relê-lo, na intenção de localizarem as tais pistas que deixaram passar da primeira vez. E sempre as encontram em alguma passagem, perdidas, disfarçadas.

E aí que entra a habilidade nº. 1 de Agatha Christie: sua capacidade de desviar nossa atenção da alta relevância das pistas, que na verdade estão bem diante de nós. Algo assim como um mágico com dedos ágeis, fazendo desaparecer moedas e notas bem debaixo de nossos narizes e aparecerem flores. Aparentemente de forma distraída, porém, na verdade, inteiramente de propósito, a escritora disfarça as pistas verdadeiras em meio a outros acontecimentos que funcionam como pistas falsas, nos enganando, tais quais as hábeis mãos do mágico.


1.2 - AGULHAS NO PALHEIRO

E como se não bastasse a capacidade em disfarçar as pistas importantes, Agatha Christie inunda o leitor com fatos diversos, os quais, por sua vez, apontam para outras tantas pistas em potencial, de modo que acabamos nos confundindo e nos enrolando com tantas possíveis pistas espalhadas diante de nós.

Resultado: a habilidade nº 2 da Rainha do Crime. Somos conduzidos por ela ao ponto em que, diante de tamanho emaranhado, não conseguimos mais distinguir as boas pistas, que levam à solução do caso, daquelas irrelevantes. É exatamente como se, a cada enredo bolado pela escritora, tivéssemos que encontrar uma agulha no palheiro!


2- O CULPADO:

2.1 - UM ROSTO NA MULTIDÃO

Golconda (1953) do pintor René Magritte
O mesmo princípio da agulha no palheiro referente às pistas quentes, as quais nos conduzem à solução do mistério, se aplica a identificação do culpado. Divisar uma certa pessoa, sozinha ou em um grupo formado por poucas outras, em um campo, em uma rua ou em uma sala é fácil. Todavia, como encontrar uma determinada pessoa em especial em uma multidão, como em um show de rock ou em um estádio de futebol? E, para dificultar ainda mais, como fazê-lo se você nem sabe direito quem ou como a pessoa é, e se esta pessoa se esforça ao máximo para se esconder de você?

Agatha Christie jamais economiza na quantidade de suspeitos em suas estórias – e esta constitui sua habilidade nº 3. Os possíveis culpados vão emergindo a cada página nos primeiros capítulos e se acumulando, enquanto nós, ávidos e pobres leitores, vamos nos perdendo na multidão.

Com tantos culpados em potencial, tornam-se bem reduzidas as chances de perseguirmos o verdadeiro criminoso desde as primeiras páginas. Trata-se de uma questão simples de probabilidade. E, como nos ensinou Albert Einstein, a verdadeira genialidade é sempre simples!


2.2 - ESQUELETOS NO ARMÁRIO

Aí então um sujeito mais cético que ainda não leu nenhum livro da escritora diria: “Ah, é impossível que tantas pessoas diferentes possam ter um motivo aceitável e crível para ter assassinado uma mesma vítima em particular!”

E outro, um ávido leitor da Rainha do Crime (e secretamente irritado por ter sido tantas vezes gentilmente ludibriado pelas tramas de Agatha Christie): “Ah, mas não importa se aparecem tantos suspeitos. Basta irmos logo eliminando aqueles obviamente mais improváveis.”

Bien, bien, não tão depressa, mes amis! – como diria Hercule Poirot.

Primeiramente, não há culpados improváveis. Não apenas nos livros de Agatha Christie, mas em toda boa literatura de crime e mistério, o atrativo mais instigante reside no fato de que o mais improvável e desapercebido personagem acaba sendo o criminoso.

Em segundo lugar – e aqui vem a habilidade nº. 4 da escritora – Agatha Christie toma o cuidado em criar tramas nas quais de fato várias pessoas possuem, sim, motivos perfeitamente coerentes e justificáveis para terem sido o criminoso em questão. Deste modo, praticamente qualquer um pode ser o assassino ou o criminoso.

Consequentemente, à medida que a estória se desenrola, torna-se cada vez mais difícil eliminar personagens cuja responsabilidade pelo crime teria ficado completamente fora de questão. Ao contrário do que se espera e do que normalmente ocorre em outros romances policiais, nas obras de Agatha Christie, ao passo que o enredo progride, todo mundo parece esconder algum esqueleto no armário, como se diz na expressão inglesa, ou seja, tem alguma culpa no cartório!

Como uma experiente maestrina movimentando sua batuta, somente na hora H a escritora permite que certos suspeitos sejam eliminados de nossa lista, apresentando os devidos argumentos e justificativas para tanto, tal qual um compasso afinado. Até que no desfecho, com uma trilha sonora imaginária ao som de rufar de tambores, as pistas boas nos são destacadas, os fatos coerentes nos são lembrados e o verdadeiro criminoso nos é finalmente apontado.


NINGUÉM ESCAPA DO LABIRINTO ERGUIDO
POR AGATHA CHRISTIE

Normalmente, nós não damos a devida importância às pistas apresentadas, pois em geral somos desprovidos das células cinzentas tão aguçadas de Poirot ou dos olhos sagazes e da experiência de vida de Miss Marple. E até mesmo estes dois muitas vezes se deixam iludir por algum artifício e não se dão conta do quão significativas certas pistas são.

Julia McKenzie como Miss Marple

São aqueles episódios em que Miss Marple gentilmente declara:
Creio que eu tenho sido grandemente estúpida;

David Suchet como Poirot
enquanto Poirot, aborrecido, brada:
Mas eu tenho sido um imbecile, mon ami, um imbecile!

E com isso nos confortamos em ver que até mesmo os dois detetives geniais acabam por vezes tontos e perdidos nos meandros do labirinto habilmente erguido pela Rainha do Crime.

Gerações após gerações, países e mais países, culturas diferentes de outras culturas: todos nós compartilhamos da mesma experiência: cedo ou tarde, todos somos enganados e feitos de bobo pelos mistérios engendrados pela da Rainha do Crime – e não apenas uma, porém várias vezes.

E simplesmente adoramos isso!!