sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poirot: Bigodes & Bengala - A LÓGICA MUITO ILÓGICA DA IDADE DE POIROT (parte 1)


David Suchet como Hercule Poirot





— Não sei... ah, meu Deus, não sei como... O senhor não vê, é tão difícil. Eu... eu mudei de ideia. Não leve a mal, mas... acho que vou embora.

— Vamos. Coragem.

— Pensei que pudesse chegar e. .. e lhe perguntar, perguntar o que devo fazer... mas não posso... o senhor não percebe? É tão diferente do que eu pensava...

— Diferente, como?

— Por favor, desculpe, eu não quero ser grosseira, mas... Ela respirou com força, olhou para Poirot, desviou o olhar, e por fim as palavras irromperam: — O senhor é velho demais. Não me disseram que era tão velho. Não quero parecer mal educada, mas é isso: O senhor é velho demais. Desculpe, por favor.

(A Terceira Moça)


*   *   *   *   *   *   


Pobre Poirot! Norma Restarick desiste de contar-lhe uma coisa importante quando descobre que ele é “muito velho”. Mas a idade de Poirot não tem sido um problema apenas para a jovem Norma: ela tem intrigado há décadas os leitores e críticos, para não falar na provável dor de cabeça que causou na própria Agatha Christie.

“Que erro terrível eu cometi ao criar Hercule Poirot já tão velho.” – confessou Agatha Christie na Autobiografia. 

A questão é que a escritora não contava que o detetive belga fôsse fazer tanto sucesso e, consequentemente, perdurar ainda por tantos livros e por tantos anos. Para piorar o dilema, ela o criou já como um policial aposentado, o que o envelheceu ainda mais desde o início.

“Como resultado, meu detetive ficcional deve ter mais de 100 anos hoje em dia!”

125 anos. Esta é a idade aproximada de Poirot à época de sua última aventura, Cai o Pano, conforme concordam estudiosos e especialistas.




OS  CABELOS  TINGIDOS  QUE  COBREM  AS  CÉLULAS  CINZENTAS



Albert Finney como Hercule Poirot


Manter uma lógica sobre a idade de Poirot que seja realistica e matemática, como, aliás, ele próprio apreciaria, ficou impossível. “Eu deveria tê-lo abandonado após os primeiros três ou quatro livros e começado novamente com alguém mais novo”, lamentou-se Agatha Christie. 

Afinal, fazer com que a idade avançada do detetive parecesse minimamente plausível diante dos fatos tornou-se um trabalho desafiador, até mesmo para as famosas células cinzentas.

Mas Agatha Christie bem que tentou. Um de seus truques foram os cabelos tingidos de Poirot: 


O cabelo do inspetor Spence estava todo grisalho agora; antes ele tinha apenas alguns fios de cabelos brancos nas têmporas. (...)

—  Já estou velho agora — disse Spence.

—  Ambos estamos.

—  Não há muito cabelo branco em sua cabeça — observou Spence.

—  Resolvo isso com um preparado — observou Poirot.

—  Não há necessidade de se aparecer em público com cabelos brancos, a menos que se queira.

—  Bem, não creio que a pintura me assentaria — disse Spence.

(Noite das Bruxas)


Ao contrastar o ex-policial Spence com Poirot, Agatha não deixa de mostrar a passagem do tempo – o policial tinha só alguns fios brancos e agora estava todo grisalho – mas assegura que Poirot tenha uma aparência mais jovem, ainda que através do recurso da tintura.




A  FÓRMULA  DA  IDADE






Porém, seu melhor truque foi manipular a passagem do tempo – sem muita lógica realística, infelizmente – especialmente para fazer com que o detetive envelhecesse sim, mas, paulatinamente. 

Sanders e Lovallo, autores de The Agatha Christie Companion, apontam para uma fórmula da idade nos livros com Poirot: a relação de 3 para 2. Através desta fórmula seria possível determinar a idade de Poirot, de modo que Poirot envelheceria aproximadamente 2 anos para cada 3 anos do calendário.   

A mim, essa explicação – se é que pode-se chamá-la assim – parece bastante plausível. 

Hum… eu disse plausível? Que os anos passem cerca de 12 meses mais devagar para uma só pessoa?  Não, ce n'est pas possible! - como diria o próprio Hercule.
 



A  MAIOR  DAS  IRONIAS 




David Suchet como Hercule Poirot


Parece, afinal, que, por grande ironia, justamente para aquele homem que preza a ordem, o método e a lógica racional acima de tudo, sua idade e seu envelhecimento neste mundo estejam cercados de ilogicidade e impossibilidades.

Hum, mas há uma solução – e é matemática, como muito apreciaria Hercule Poirot!

Na parte 2 deste artigo, falarei sobre os cálculos matemáticos que buscam definir com precisão a idade do detetive. Aguardem, por favor!



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

PERSONAGENS que também AMAMOS- ARIADNE CONTA TUDO (parte 3) sobre PESSOAS





Zoe Wannamaker como Mrs. Ariadne Oliver


Alguns suspeitam, outros têm certeza: Mrs. Ariadne Oliver, personagem criada por Agatha Christie, seria de fato uma versão autobiográfica da própria Agatha. 


Coincidências não faltam: ambas são escritoras de sucesso de romances policiais, ambas adoram maçãs, ambas até possuem um personagem – um famoso detective, que é venerado pelos fãs, mas que elas, suas criadoras, simplesmente odeiam. (Veja mais detalhes sobre essas coincidências no artigo: Mrs. Oliver seria a própria Agatha Christie?  (http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2013/07/quarta-e-dia-de-last-but-not-least.html )


Acredita-se que Agatha Christie se utilizava da voz de Mrs. Oliver para expressar suas ideias sobre os mais variados assuntos.


Através da série Ariadne conta tudo, eu venho apresentando excertos dos livros nos quais Mrs. Oliver aparece e manifesta alguma opinião interessante – às vezes até polêmica – a qual, muito provavelmente, era na verdade o que pensava Agatha Christie.


Nos artigos anteriores:

parte 1 - sobre A ARTE DE ESCREVER e A CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS
 http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2014/09/o-metodo-christie-as-confissoes-veladas.html 

 parte 2 - sobre ASSASSINATOS, ASSASSINOS e suas VÍTIMAS
http://agathachristieobraeautora.blogspot.com.br/2015/02/o-metodo-christie-o-que-possivelmente.html 


Neste 3º artigo, vejamos o que Ariadne Oliver tem a nos revelar como indícios das ideias da Rainha do Crime acerca de diferentes pessoas que povoam o universo de uma escritora: pessoas comuns, fãs, editores e adaptadores de seus livros.


 
Zoe Wannamaker como Mrs. Ariadne Oliver



PESSOAS COMUNS

  
"Os homens sabem tomar conta de si mesmos e, nesse caso, eu não teria me importado tanto."

"Acho as árvores muito mais simpáticas do que as pessoas, muito mais repousantes."

"As pessoas são tão estúpidas."

"São todas de modo geral simpáticas, mas quem sabe?"



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— Não consigo imaginar por que escolhi a mulher iugoslava de um Cientista Atômico para ser a vítima! - disse a Sra. Oliver, passando as mãos pelo sofisticado penteado de maneira tão frenética que parecia estar ligeiramente bêbada.

— Foi uma completa imbecilidade minha. Poderia muito bem ter sido o segundo jardineiro, que não era o que parecia e isso seria bem menos complicado porque, afinal de contas, na maioria, os homens sabem tomar conta de si mesmos e, nesse caso, eu não teria me importado tanto.


(A Extravagância do morto) 




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— Adoro as pessoas, você não gosta? — disse Robin com alegria.

— Não — disse a Sra. Oliver com firmeza.

— Mas você devia gostar. Com todas as pessoas que põe em seus livros.

— E diferente. Acho as árvores muito mais simpáticas do que as pessoas, muito mais repousantes.


(A Morte da Senhora McGinty) 




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— Onde pretendia que fosse?

— Naquela engraçada casinha metida no meio dos rododendros, perto da casa. Achei que aquele era exatamente o lugar. Mas então alguém, não consigo lembrar com precisão quem, começou a insistir que deveria ser encontrado na Extravagância. Bom, isso, naturalmente, era uma idéia absurda! Quero dizer, qualquer pessoa poderia caminhar até ali, casualmente, e achá-lo, sem ter seguido uma única pista. As pessoas são tão estúpidas. Claro que eu não poderia concordar com isso.


 (A Extravagância do Morto)




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Tirando furtivamente seus sapatos e mastigando ainda tranquilamente sua maçã, a Sra. Oliver reclinou-se mais uma vez no sofá, observando criticamente a sala cheia de gente. Pensava em seu espírito criador. “Se eu tivesse de escrever um livro com todas essas personagens, como me sairia? São todas de modo geral simpáticas, mas quem sabe?” “De certo modo”, pensava, “era um tanto fascinante não saber nada a respeito delas.”


(Noite das Bruxas)






AH, OS FÃS...




 "Vêm dizer coisas — que adoraram meus livros, que estavam loucas de vontade de me conhecer — eu fico logo encabulada, sentindo-me tão boba."


 "Não posso imaginar por que as pessoas se interessam tanto em ouvir os autores falarem a respeito de escrever. Eu deveria ter pensado que o negócio do escritor é escrever e não falar."




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Há as pessoas que me vêm dizer coisas — que adoraram meus livros, que estavam loucas de vontade de me conhecer — eu fico logo encabulada, sentindo-me tão boba...


(A Terceira Moça)




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— É esplêndido que tenha me telefonado —  disse. —  Eu estava saindo para fazer uma palestra sobre como escrevo meus livros. Agora posso mandar minha secretária ligar e dizer que estou presa por um compromisso inadiável.

— Mas Madame, não deve deixar que eu impeça...

— Não é caso de impedir - disse a Sra. Oliver alegremente. — Eu iria bancar uma completa idiota. [...] Não posso imaginar por que as pessoas se interessam tanto em ouvir os autores falarem a respeito de escrever. Eu deveria ter pensado que o negócio do escritor é escrever e não falar.


(A Extravagância do Morto)





EDITORES



 
Zoe Wannamaker como Mrs. Ariadne Oliver




"Não acredito que o senhor saiba se alguma coisa que eu escrevo é boa ou ruim." 



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A Sra. Oliver andava de um lado para outro, em sua sala de estar. Estava agitadíssima. Uma hora antes, tinha empacotado um maço de provas que acabara de corrigir. Tinha de mandá-las para o seu editor, que as esperava ansiosamente, já tendo reclamado mais de uma vez pela demora.

— Aí está — disse a Sra. Oliver, como se, por um passe de mágica, o editor tivesse repentinamente aparecido à sua frente.

— Aí está, e espero que goste! Eu não gosto. Acho uma porcaria! Não acredito que o senhor saiba se alguma coisa que eu escrevo é boa ou ruim. De qualquer maneira, eu lhe avisei. Eu lhe disse que era horrível. O senhor disse que "não, impossível, impossível". — Agora, espere só, e verá — continuou ela, com um tom vingativo. — Espere, e verá. 


(A Terceira Moça)





ADAPTADORES DOS LIVROS




"Todos dizem que ele é muito inteligente. Se ele é tão inteligente, não vejo por que não possa escrever a sua própria peça de teatro e deixar o meu pobre e infortunado finlandês em paz."



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—Um livro meu está sendo dramatizado — por Robin Upward. Nós deveríamos chegar a uma idéia sobre ele.

— Meus parabéns, Madame.

— Não é nada do que está pensando — disse a Sra. Oliver. — Até agora foi uma mera agonia. Eu não sei por que fui me deixar levar. [...] O senhor não tem ideia da agonia de ter os seus

personagens obrigados a dizerem coisas que eles nunca teriam dito e fazerem coisas que eles nunca teriam feito. E, se você protesta, tudo o que eles dizem é que é “bom teatro”. É isto que pensa Robin Upward. Todos dizem que ele é muito inteligente. Se ele é tão inteligente, não vejo por que não possa escrever a sua própria peça de teatro e deixar o meu pobre e infortunado finlandês em paz.
 

(A Morte da Senhora McGinty) 




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

AGATHA CHRISTIE NAS TELAS - Locações de MORTE NA PRAIA e A MANSÃO HOLLOW


Conheça as locações de:


- Morte na Praia  


- A Mansão Hollow 





LOCAÇÕES DE: 


MORTE NA PRAIA




Burgh Island, em Bigbury-on-Sea, no Sul de Devon.





Close up do hotel em de Burgh Island




Close up do hotel em de Burgh Island




O Sea Tractor, ou trator marítimo, no qual Poirot fica relutante em ser transportado até a ilha.



Alcombe, em South Devon, que no episódio parece estar em frente à ilha.




Igreja de Hambleden



Frieth Village Hall, em Buckinghamshire




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LOCAÇÕES DE:

A MANSÃO HOLLOW




Prédio na Duchess Street, em Londres 



Outra vista do prédio na Duchess Street