quinta-feira, 14 de abril de 2016

LIVROS & ENTRELINHAS - OS TOP 5 VENENOS FAVORITOS DE AGATHA CHRISTIE




AGATHA CHRISTIE: RAINHA DOS VENENOS 
(parte 1)



Posso inventar a qualquer hora um crime melhor do que qualquer coisa tirada da realidade. Nunca me faltaram ideias pra uma trama. E as pessoas que leem meus livros gostam de venenos que não deixam vestígio.

(Mrs. Oliver em Cartas na Mesa)







Agatha Christie matou suas vitimas de diversas formas diferentes, mas nenhuma delas foi tão frequente a ponto de ficar eternamente associada à imagem da escritora como a morte por envenenamento. Também pudera! Agatha trabalhou durante a guerra em um dispensário médico, organizando e anotando remédios e outras substâncias químicas, o que aguçou sua curiosidade acerca de venenos e seus usos e origens.

Em seus livros, os assassinos lançam mão de venenos com certa facilidade. Quando não são substâncias disponíveis em seu trabalho, são facilmente encontrados na dispensa da casa ou no armário de material de limpeza, ou ainda no jardim. Além disso, Agatha era uma dama e, convenhamos: a morte através de envenenamento é, digamos, muito mais elegante – sem sujeira, sangue, membros decepados e coisas horrorosas assim.







Lançado recentemente, o livro A is for Arsenic (“A” de Arsênico) da Dra. Kathryn Harkup elenca um veneno utilizado por Agatha Christie em suas obras para cada letra do alfabeto. Porém, nós sabemos que a Rainha do Crime utilizou muito mais venenos do que as 26 letras do alfabeto inglês.

Assim, me lancei na pesquisa sobre todos os elementos envenenadores utilizados por Agatha Christie em sua obra. Dividi o resultado de minha pesquisa em 5 artigos:



Parte 1 – Os TOP 5 venenos mais utilizados por Agatha Christie



Parte 2 – Os venenos que não são comuns de serem usados como arma de assassinato e os venenos curiosos ou inusitados
http://agathachristieobraeautora.blogspot.com/2016/04/curiosidades-inusitados-ou-incomuns-os.html


Parte 3 – Os medicamentos que podem ser mortais
http://agathachristieobraeautora.blogspot.com/2016/04/livros-entrelinhas-os-remedios.html


Parte 4 – As plantas perigosamente venenosas e a polêmica dos venenos que teriam sido inventados por Agatha Christie 
https://agathachristieobraeautora.blogspot.com/2016/05/curiosidades-o-jardim-de-venenos-de.html

Parte 5 – Os demais venenos utilizados por Agatha Christie e as histórias em que o veneno não foi informado
http://agathachristieobraeautora.blogspot.com/2016/05/livros-entrelinhas-o-fascinante-e.html




Nesta 1ª parte, apresento os 5 venenos prediletos de Agatha Christie para liquidar suas vitimas, uma vez que foram os mais frequentemente utilizados.





OS  5  VENENOS  FAVORITOS  DE  AGATHA  CHRISTIE:

VENENOS  CLÁSSICOS




Nº 1 – CIANURETO






 — Eu estava aturdido, quando tudo aconteceu... completamente arrasado. Simplesmente aceitei o veredicto, no inquérito. Rosemary havia tido uma gripe, estava deprimida... Ninguém suspeitou de nada, além de suicídio — o veneno foi encontrado em sua bolsa, percebe?
— Cianureto.

— Ah, sim, lembro-me agora... Ela o tomou com champanha.

(Um Brinde de Cianureto)


Cianureto ou cianeto foi o veneno favorito de Agatha Christie para matar suas vitimas: acabou com a vida de personagens em 13 histórias, chegando, inclusive, à honra de constar no título de uma delas – Um Drinque de Cianureto. Derivado das sementes de plantas da família Prumus, pode constar na forma de acido prússico ou como potássio. É muito eficaz, pois em alta concentração o veneno leva à morte em poucos minutos.

Foi utilizado em: Noite sem Fim; A Maldição do Espelho; Cem Gramas de Centeio; Um Drinque de Cianureto; A Mão Misteriosa; E Não Sobrou Nenhum; Morte nas Nuvens; Os Quatro Grandes; O Estranho Caso de Sir Arthur Carmichael; O Gerânio Azul;  Ninho de Vespas; A Iris Amarela; Acidnte.






Nº 2 – ARSÊNICO









— Está certo de que foi alguma coisa que ela comeu? Comida envenenada? — indagou Susan. O médico lançou-lhe um olhar penetrante. Então pareceu chegar a uma decisão.

— Foi arsênico — afirmou ele.

— Arsênico? — espantou-se Susan. — Quer dizer que alguém lhe deu arsênico?

— É o que parece.

(Depois do Funeral)



Não é de origem vegetal nem animal: o arsênico é um semimetal – um elemento químico encontrado no grupo 15 da Classificação Periódica dos Elementos, cujo símbolo é As, com número atômico 33 e massa atômica de 75 u. Trata-se de um pó branco, sem gosto e sem cheiro, que não se dissolve na água fria, porém se mistura bem em líquidos quentes – perfeito para colocar no chá, no chocolate quente ou no café.

Agora, uma pergunta: você usaria um vestido feito de arsênico? Ou decoraria sua sala ou banheiro com papel de parede feito de arsênico? Pois saiba que era moda no séc. XIX e milhares de pessoas obviamente morreram envenenadas! Confira e se surpreenda com o artigo que publiquei em:



Foi utilizado em (embora nem sempre fatal): O Clube de Terça à Noite; É Fácil Matar; A Hydra; Um Passe de Mágica; Depois do Funeral; A Testemunha Ocular do Crime; A Maldição do Espelho; Aventura em Bagdá; O Mistério da Cornualha.






Nº 3 – ESTRICNINA




strychnos nux vomica - planta de onde se extrai a estricnina



O caso é que a Sra. Inglethorp morreu de envenenamento por estricnina que foi, eu presumo, adicionada ao seu café.

(Poirot em: O Misterioso Caso em Styles )


Alcaloide derivado das sementes da árvore Strychnos nux vomica, age sobre receptores de pós-sinapse na espinha dorsal, causando espasmos, convulsões e levando à morte, a qual ocorre cerca de 3 horas após a ingestão do veneno. A estricnina é uma das favoritas dos escritores pela dramaticidade de seus efeitos. Guarda o status de ter sido o 1º veneno utilizado por Agatha Christie e a 1ª forma de assassinato em O Misterioso Caso em Styles.

Foi utilizada em: O Misterioso Caso em Styles; Morte no Nilo (conto); Passageiro para Frankfurt; As Aventuras da Tumba Egípcia; A Hydra; Como Floresce o seu Jardim?; A Volta de Mr. Quin.






Nº 4 – DIGITALIS


 
dedaleira - planta de onde se extrai a digitalina



—  Mas Mistress Boynton sofria do coração...

—  Sofria. Por sinal, até tomava um remédio que continha Digitalis.

—  Isso é interessantíssimo - observou Poirot.

—  Quer dizer que a morte podia ser atribuída a uma dose excessiva do seu próprio medicamento? - perguntou o coronel.

—  Podia...

(Encontro com a Morte)

Digitalis ou digitalina é extraída de uma planta herbácea que dá belas flores arroxeadas, conhecidas no Brasil como campainha, dedaleira, erva-dedal entre outros nomes. O nome cientifico da planta é Digitalis purpúrea, e o veneno pode ser obtido de qualquer parte da dedaleira, bastando apenas 3 folhas ou 5 flores para se conseguir uma dose mortal. A digitalina é muito usada como medicamento tônico para o coração, bem como em urgências de complicações cardíacas, porém, mal administrada ou em doses excessivas, leva ao infarto e à morte.

Foi utilizado em: Os Treze Enigmas; Um Corpo na Biblioteca; A Casa Torta; Encontro com a Morte; Portal do Destino; Problemas no Mar; A Erva Mortal.





Nº 5 – MORFINA



bulbo e flor da papoula do oriente - de onde se extrai o opium e depois a morfina


— Não sabem como a morfina foi parar na cerveja?

— Não. Interrogaram o pessoal do bar onde eu a comprei e abriram outras garrafas. Estava tudo em ordem.

— Então alguém deve ter colocado a morfina na cerveja enquanto você dormia...

— Deve ter sido isso Lembro-me que o selo da garrafa não estava bem colado.

(Por que não pediram a Evans?)


Narcótico com alto poder analgésico, a morfina é largamente utilizada com fins medicinais para o tratamento de dores severas. Seu nome se origina em Morfeu, o deus grego mitológico dos sonhos, e a diacetilmorfina, popularmente conhecida como heroína, é uma droga derivada da morfina. Denominadas de drogas opiaceas, a morfina é extraída a partir do ópio, que por sua vez é obtido da planta Papaver somniferum, mais conhecida como papoula do Oriente.

Foi utilizada em:  Assassinato no Campo de Golfe; O Mistério dos Sete Relógios; Por que não pediram a Evan?; Cipreste Triste; E no final a morte; Morte na Rua Hickory; Um Pressentimento Funesto.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

ENTRE ASPAS - AGATHA E OS MISTÉRIOS DO BANHEIRO





"Era impensável ser enxergado entrando ou saindo de um banheiro!"

Agatha Christie na Autobiografia




típico banheiro vitoriano clássico



No trecho a seguir da Autobiografia, Agatha Christie nos narra um episódio divertido de sua infância que envolve a questão do uso do banheiro nos idos do século XIX: 


Meu padrinho, Lorde Lifford, era boa alma e pessoa alegre. Chamava-se então capitão Hewitt. Veio um dia a nossa casa e, ouvindo dizer que o sr. e a sra. Miller haviam saído, comentou risonho: “Oh! Não faz mal. Vou esperar por eles”, e tentou entrar em casa, contra a vontade da empregada.



Contudo, esta, que era conscienciosa, fechou-lhe a porta na cara e correu pela escada acima para falar com ele pela janela do banheiro, mais convenientemente situada para esse efeito.



Finalmente, ele a convenceu de que era um amigo da família, provando isso com o conhecimento que demonstrou ter da casa: “E sei muito bem de que janela você está falando: é a janela do banheiro”. Essa prova topográfica venceu-a, e ela o deixou entrar, embora depois fugisse, envergonhada pelo fato de lhe ter falado da janela do banheiro.



Nesses tempos, era melindroso falar a respeito de banheiros. Era impensável ser enxergado entrando ou saindo de um banheiro, exceto por membro íntimo da família: coisa muito difícil em nossa casa, porque o banheiro ficava a meio das escadas e bem à vista de quem estava no vestíbulo.



O pior, é claro, era estar dentro do banheiro e começar a ouvir vozes lá embaixo, no hall. Impossível sair! Havia que aguentar emparedada, até que aquelas paragens ficassem livres!


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típico banheiro victoriano campestre



Ao pesquisar sobre esses tais hábitos e melindres acerca do uso do banheiro na Era Vitoriana, acabei por me deparar com três fatos bem curiosos, os quais compartilho:





OH, CRAP!



O 1º é sobre a gíria crap, da expressão Oh crap! - típica norte-americana, que seria semelhante, em português, para ser bem educada, à expressão: Que bosta!


 
Caixa d'água de sanitário da era victoriana



Sabe qual é a origem dela? Em 1891, um inventor e empresário da época patenteou a válvula e o sifão utilizados nas caixas de água dos vasos sanitários de então, os quais sua empresa produzia. O nome do empresário era Thomas Crapper, e os vasos sanitários possuíam o nome de sua empresa gravados neles: T. Crapper, Brass and Co. Durante a 1ª guerra mundial, os soldados norte-americanos lendo o nome pintado bem acima das privadas, foi só uma questão de tempo para cunharem a gíria crap.






QUE  TAL  UM  VESTIDO  OU  UM  PAPEL  DE  PAREDE  FEITO  DE  ARSÊNICO?



 
banheiro moderno em cor verde no tom arsênico



Este é parece ter sido inventado especialmente para Agatha Christie! 

Na era vitoriana, havia um determinado tom de verde que se tornou bastante popular. Papeis de parede e até mesmo vestidos foram feitos nesta cor. O problema é que o pigmento era obtido através do uso de arsênico. A substancia altamente tóxica apareceu por volta de 1850, mas até então, não se sabia que ela era letal ao ser humano. 

Mulheres adoeciam quando usavam os vestidos na cor da moda, e homens e crianças passavam mal depois de usarem ao banheiro, cujas paredes eram forradas com papeis de parede à base de arsênico.




vestido do séc. XIX em tecido tingido à base de arsênico



Quando se descobriu o caráter altamente venenoso da substância, a qual poderia matar uma pessoa por simplesmente entrar em contato com ela, muitas empresas, nos anos de 1870, tiveram que fazer propaganda de seus produtos de papel de parede ou de tecidos avisando que não continham arsênico, tamanho foi o medo da população de morrer por usar uma roupa ou lavar as mãos na pia do banheiro.





charge do séc. XIX devido ao uso popular de arsênico como tinta



 A Valsa de Arsênico – até que dava um bom título para uma história de mistério - uma charge de uma caveira tirando uma dama para dançar, assustava a todos, já que muitas mulheres morreram subitamente, e somente tempos depois descobriu-se que foi por causa do vestido que usaram, com tecido de arsênico.


Hoje em dia, a palavra arsênico é utilizada para definir justamente esse tom de verde em especial: o verde arsênico.







SUA MAJESTADE, A BANHEIRA!




típica banheira victoriana



Nenhum outro aspecto é mais característico dos banheiros da Era Vitoriana do que a banheira de cuba e pés arredondadas, estes últimos, salientes e semelhantes a garras, e, é claro, ricamente ornados. A localização da banheira também era um fator importante: deveria ser posicionada de modo que a pessoa, mergulhada em bolhas de espuma perfumada, poderia avistar a paisagem pela janela, porém, não perto demais para não receber uma corrente de ar repentina.

A implementação dos sistemas hidráulicos clamaram por torneiras igualmente ricamente ornadas, de bronze ou revestidas com pinturas douradas, combinando com as torneiras das pias. Ladrilhos em cores fortes, como o verde musgo, mostarda, azul cobalto, cobriam as paredes ao redor da banheira, para o caso de respingos d’água. O restante das paredes do banheiro eram tradicionalmente forradas com papel de parede.



 
típica banheira victoriana


 
Móveis pesados, onde se guardavam as toalhas, roupões, sabonetes, espumas e óleos de banho, costumavam ter tampões de mármore e puxadores combinando com as torneiras. E, é claro, a bacia e a jarra de louça finamente ornada sobre a cômoda era um clássico!


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Sites:




quinta-feira, 10 de março de 2016

MISS MARPLE: CHÁ & BOLINHOS - UMA “MISS MARPLE” DA VIDA REAL





VELHINHA  BRITÂNICA  DESMASCARA  LADRA  NO  MELHOR  ESTILO  "MISS  MARPLE"




Sylvia Gibbs em sua casa em  Gosport, Inglaterra


Confesse: você adoraria conhecer Miss Marple pessoalmente, se uma mágica qualquer a tornasse real! Bem, infelizmente isso não é possível. Mas você pode conhecer outra velhinha britânica – esta de verdade! – que solucionou um caso de furto no melhor estilo Miss Marple.
 

A Srª Sylvia Gibbs, de 82 anos, é uma idosa com dificuldades de enxergar e outras debilidades típicas da idade. Mas sua mente continua mais ativa do que a da maioria, como disse o Promotor de Justiça Jstin Gau. Ela percebeu que seu dinheiro estava sumindo de dentro de sua casa em Gosport, em South Hampshire, Inglaterra, e começou a desconfiar da cuidadora de idosos, Kerry Skipp, de 26 anos. 

Mas, como não tinha uma prova, ela bolou um plano. A Srª Gibbs marcou discretamente algumas notas com uma caneta e aguardou a próxima visita de Kerry Skipp. Depois que a cuidadora foi embora, a Srª Gibbs confirmou o que suspeitava: as notas marcadas  tinham desaparecido!

A Srª Gibbs então chamou a polícia e contou sua história. Os policiais lhe deram um voto de confiança e decidiram repetir exatamente o mesmo que a Srª Gibbs fez: marcaram outras notas e aguardaram discretamente a nova visita da cuidadora. Quando Kerry Skipp deixou a casa da Srª Gibbs, os policiais a interceptaram e encontraram £80 em notas marcadas em sua bolsa, além de cheques em branco nominais a ela mesma.


Kerry Skipp furtou um total de £1,640 da Srª Gibbs, mas a esperta velhinha não foi sua única vítima. Durante o julgamento, descobriu-se que a cuidadora também havia furtado a Srª Hilda Worley, de 95 anos, que tinha glaucoma e sofria de demência senil. A corte ordenou que Kerry Skipp restituísse o dinheiro, mas como ela já tinha gastado a maior parte, apenas devolveu o que tinha sobrado, além de ter que cumprir uma pena de prisão.

A Srª Gibbs não ficou aborrecida, todavia. Ela declarou: 

“Eu fiquei irritada quando descobri que ela me roubava, mais do que zangada. Eu não podia deixá-la se dar bem com isso. Fiquei satisfeita que a polícia a pegou, embora a pena de prisão não seja grande o suficiente. Eu acho mesmo que ela foi estúpida.”


Não é igualzinho ao jeito de Miss Marple falar?



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Para ver a reportagem completa no jornal The Telegraph: 

http://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/howaboutthat/9506160/Miss-Marple-pensioner-catches-thieving-carer.html