sexta-feira, 18 de abril de 2014

MISS MARPLE: CHÁ & BOLINHOS - O Dia Em Que Agatha Christie Foi Esnobe


MODESTA  SIM,  TOLA  JAMAIS!



A atriz Margaret Rutherford  e Agatha Christie


Existe uma frase célebre que é atribuídas a Agatha Christie, mas que sempre me intrigou. A frase é a seguinte:

Eu tenho, afinal de contas, um pouquinho de experiência em desenvolver tramas, diálogos, e em saber o que o público gosta, não achas?


Ora, Agatha Christie era a própria imagem da elegância e da modéstia! Assim sendo, para ter proferido uma ironia destas, com um quê de esnobismo, ela certamente teve um forte motivo. Aconteceu o seguinte:



EM  DEFESA  DE  MISS  MARPLE

Margaret Rutherford como Miss Marple





Agatha Christie proferiu aquela frase durante uma entrevista, quando foi questionada acerca do livro Assassinato no Hotel Bertram (At Bertram’s Hotel, 1965). Mais precisamente, a pergunta se direcionava ao motivo pelo qual a edição do livro vinha com o seguinte subtítulo já na capa:

Protagonizando Miss Marple, a personagem original conforme criada por Agatha Christie.

Para quem não se encontra inteirado do que estava acontecendo naquela época, tal subtítulo pode até parecer redundante, afinal, se foi Agatha Christie quem escreveu o livro - o qual nem é o primeiro com Miss Marple - por que então a necessidade de frisar que se trata da personagem original conforme a autora idealizou? Mas havia sim um forte motivo para tamanha preocupação.




Margaret Rutherford como Miss Marple


Ocorre que no princípio da década de 1960, portanto logo anteriormente à publicação de Assassinato no Hotel Bertram em 1965, uma série de 4 filmes inspirados em Miss Marple e suas aventuras foram lançados, tendo a atriz de origem inglesa Margaret Rutherford (11 de maio de 1892 - 22 de maio de 1972) no papel principal. Os filmes são:

- Murder, she said, 1961 (algo como: Assassinato, disse ela)
- Murder at the Gallop, 1963 (algo como: Assassinato a Galope)
- Murder Most Foul, 1964 (algo como: Um Assassinato Muito Sujo)
- Murder Ahoy!, 1964 (algo como: Assassinato, epa!) :

 Os filmes até fizeram bastante sucesso. Todavia, Agatha Christie ficou bastante aborrecida com os filmes (assim como muitos outros fãs de Miss Marple, diga-se de passagem), e, em consequência disso, fez total questão de incluir aquele subtítulo por ocasião do lançamento de Assassinato no Hotel Bertram.


Margaret Rutherford como Miss Marple


Absolutamente nada contra Dame Margaret Taylor Rutherford, DBE (Dame of the British Empire - Dama do Império Britânico, já falecida), ganhadora do premio máximo da Academia, do Golden Globe e de outros importantes prêmios como atriz.
A própria Agatha Christie, inclusive, dedicou à atriz seu livro A Maldição do Espelho (The Mirror Cracked from Side to Side, 1963) : À Margaret Rutherford, em admiração.
O problema está diretamente nos filmes em si: na forma como a adaptação da personagem de Miss Marple foi feita, ou seja, no modo como os roteiros foram escritos e como a direção e a montagem dos filmes foram desenvolvidas.
UMA  CARICATURA  DA  VELHA
SOLTEIRONA  E  MEXERIQUEIRA
(com o perdão dos politicamente corretos
e com licença ao Estatuto do Idoso)
Margaret Rutherford (vestida de homem) como Miss Marple
e Stringer Davis como Mr. Stringer
Ocorre que nestes filmes, Miss Marple é caracterizada de um modo radicalmente e completamente diferente - diametralmente oposto mesmo, eu diria - àquela Miss Marple criada por Agatha Christie e já conhecida e amada pelos fãs.   
A Miss Marple encarnada por Margaret Rutherford encontra-se muito mais próxima de uma caricatura da velha solteirona mexeriqueira (que me perdoem os politicamente corretos, mas esta é a descrição precisa), daquelas bem exageradas e que beiram os limites do ridículo. Nem mesmo na 1ª fase de caracterização de Miss Marple, ou seja, em seus primeiros livros, Agatha Christie usou tons tão fortes assim para conceber a velhinha esperta e fofoqueira. 
As aventuras nas quais a Miss Marple de Margaret Rutherford se envolve são inconcebíveis para a Miss Marple original., Ocorrem situações que são repletas de ação, as quais são quase sempre realizadas pela própria Jane Marple. Aquelas questões típicas da idade avançada, largamente descritas por Agatha Christie nos livros da Miss Marple original, como seu reumatismo, dificuldade para enxergar, dores nas costas e nos pés, são inteiramente descartadas nestes filmes.    
Margaret Rutherford como Miss Marple




Assim, a Miss Marple encarnada por Margaret Rutherford - Imaginem so!! - aparece em situações inusitadas para uma senhorinha calma e de idade avançada, como: dançando o twist, montando a cavalo, disfarçada vestida de homem (foto), só para citar alguns exemplos.


A personagem era caracterizada como uma mulher muito energética e física, surgindo em cenas nas quais praticava esporte, como tênis (foto), pedalava uma bicicleta com a habilidade uma jovenzinha (foto), escalava muros de sebe ou paredes de hera até uma janela com um vigor quase masculino, e outras coisas mais!


Margaret Rutherford como Miss Marple e o ator Alexander Eastley

Como se não bastasse tudo isso, o último filme da série, Murder Ahoy!, não é baseado em nenhuma obra de Agatha Christie. O roteiro foi totalmente inventado, e nele, esta nova Miss Marple é construída como uma verdadeira mandona, praticamente uma megera, que tem a personalidade de um soldado e comanda uma batalha naval!
  
O resultado são 4 filmes que se assemelham à comédia pastelão! São situações divertidas, é bem verdade, mas que naturalmente situam-se a anos-luz de distância de nossa doce e meio fofoqueirinha velhinha detetive. Além disso, acredito que todos hão de concordar que as expressões, caras e bocas de Margaret Rutherfod  já são por si só uma caricatura - e das boas! Ela foi dirigida para fazer um papel cômico, para tirar boas gargalhadas do público, e como a excelente atriz que era, foi exatamente o que fez.
Eu não advogo contra os filmes - até acho que vale a pena assisti-los. Mas não com a pretensão de ver nossa amável senhorinha detetive solucionando sabiamente algum enigma enquanto faz tricô, toma um chazinho com calma e visita as pessoas para obter informações. Não se engane: a Miss Marple de Margaret Rutherford não tem absolutamente nada da docilidade interiorana inglesa!


UMA VEZ UMA DAMA, SEMPRE UMA DAMA:



ABORRECIDA SIM, SEM CLASSE, JAMAIS!

Margaret Rutherford como Miss Marple 


Agora, voltando àquela frase de Agatha Christie e nos colocando em seu lugar, francamente: até eu, esta ousada cronista da vida e da obra de Dame Agatha que aqui lhes escreve, redigiria roteiros mais adequados ou mais semelhantes da Miss Jane Marple da pacata vila rural de St. Mary Mead!
Em vista do ocorrido, é mais do que justificável que Agatha Christie tenha se zangado e defendido sua própria personagem, não acham?
E, convenhamos, sua frase foi a de uma verdadeira Dama e de uma inteligência ímpar: foi proferida com a classe de uma ironia sutil encoberta em uma interrogativa. Perfeito!



quinta-feira, 17 de abril de 2014

ENTRE ASPAS - Agatha aprendendo com seu neto Mathew


UM TEMPO PARA BRINCAR,
OUTRO PARA SHAKESPEARE.


Agatha Christie e seu neto Mathew
 
Autobiografia -  Quarta parte
FLERTES, NAMOROS, PROCLAMAS, CASAMENTO
(Jogo popular vitoriano)

Não há maior erro na vida do que ver coisas, ou escutá-las, em  ocasião imprópria.

Shakespeare  perdeu-se  para  muita  gente por  terem  tido  que  estudá-lo  na  escola:  Shakespeare  deve  ser apreciado no palco; ele escreveu para ser visto. Aí pode-se admirá-lo mesmo  quando  se  é  muito  jovem,  muito  antes  de  podermos apreciar toda a beleza da sua linguagem e da sua poesia.

Levei meu  neto  Mathew  para  ver  Macbeth e  As alegres comadres de Windsor, em Stratford, quando ele tinha, acho, onze ou doze anos. Mathew gostou muito de ambas as peças, embora seu comentário tenha sido inesperado. Virou-se para mim à saída e disse em voz respeitosa:

“Se não soubesse antes que era Shakespeare, jamais acreditaria”. 

Isso  era,  claramente,  um  testemunho  a  favor  de Shakespeare, e foi nesse sentido que o tomei.
 
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Caricatura de William Shakespeare
 
 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Agatha & História - O Memorial: The Book


THE BOOK  IS  ON  CRANBOURN STREET

 

 


The Book é o nome de um belíssimo memorial permanente erguido em homenagem à Agatha Christie e à sua obra, e que foi inaugurado no dia 18 de novembro de 2012.
 

 

O memorial, obra do escultor Ben Twiston-Davies, fica localizado na (rua) Cranbourn St, próximo à estação de metrô Leicester Square, em Convent Garden. Mas, se você não viajará a Londres tão cedo para apreciá-lo pessoalmente, então curta esta linda homenagem à obra de nossa Rainha do Crime através das fotos que publico neste artigo.
 

 

O encerramento do memorial (veja o link para o vídeo da cerimônia ao final) também comemorou o 60° aniversario de encenação de sua peça teatral A Ratoeira, cuja estreia ocorreu em 25 de novembro 1952 no Teatro Ambassadors, e permanece em cartaz, sendo encenada atualmente no Teatro St. Martin (mais informações a respeito nos links ao final). Ambos os teatros, que são vizinhos, ficam nas proximidades do memorial.
 


 

A escolha do formato de um livro gigante se deve ao fato de Agatha Christie, de acordo com o Livro de Recordes Guinnes (Guinness Book of World Records), ser a romancista best-selling em todo o mundo, com mais de 4 bilhões de livros vendidos.
 

 

Alusivos à careira e à obra da maior escritora de crime e mistério de todos os tempos, o memorial The Book reúne vários símbolos que representam o universo criado e vivido por Agatha Christie, como, por exemplo:
 

Hercule Poirot, o magnífico detetive belga.



Detalhe de Hercule Poirot no The Book 
 


Miss Jane Marple, a esperta velhinha detetive amadora.
 
O trem Expresso do Oriente, simbolizando um de seus mistérios mais engenhosos e, consequentemente, um dos seus livros mais famosos: Assassinato no Expresso do Oriente.
 
 
Uma ratoeira servindo para prender cortinas de palco, simbolizando sua mais famosa peça teatral: A Ratoeira.
 

Uma mansão, representando uma das localizações mais recorrentes em suas obras, onde os misteriosos assassinatos ou outros crimes aconteciam, em meio a aristocracia, e onde as investigações ocorriam.
 

Uma máquina de escrever, representando a que era inseparável de Agatha Christie, e na qual se materializavam em palavras e papel as ideias fantásticas que brotavam em sua mente para os enredos de seus livros.
 

O título de vários livros de sucesso de Agatha Christie, em diferentes línguas, aludindo ao fato de suas obras serem traduzidas em dezenas de línguas e para dezenas de países.
 
 


 
 
 
 
 
 
A assinatura do escultor Ben Twiston-Davies
 
 
Informações contidas no monumento.
 

As datas de nascimento e falecimento de Agatha Christie, a Rainha do Crime.
 


O céu de Londres sobre o The Book.
 

Para saber mais:

vídeo da cerimônia de encerramento do The Book:

A Ratoeira: 60 anos – Encenação de gala (artigo deste blog)  


sábado, 5 de abril de 2014

PERSONAGENS que também AMAMOS - O Elegante Guarda Roupa de Miss Lemon


INCRIVELMENTE ELEGANTE!


Pauline Moran como Miss Felicity Lemon
Hercule Poirot descreve sua secretária, Miss Felicity Lemon, como sendo uma mulher:

inacreditavelmente feia e incrivelmente eficiente.

Ainda bem que a série britânica de TV Poirot corrigiu esta injustiça para sempre!

Uma das coisas que mais me chamam a atenção nos episódios de Poirot – e olha que há neles muitas coisas ótimas e merecedoras de destaque – é o elegantérrimo guarda roupa de Miss Lemon. Através do talento da bela atriz Pauline Moran e com a ajuda de uma ótima equipe de criação de figurino, a eficiente secretária esbanja charme e estilo através de lindos modelitos.




Estes modelos são típicos dos anos de 1930, época em que os episódios da série são situados (apesar de as aventuras de Poirot, nos originais, terem se iniciado no fim dos anos de 1920 e se estendido até a década de 1960)
 
Eu fico simplesmente encantada com todos aqueles trajes e acessórios, bem como com a maquiagem e os penteados de Miss Lemon, todos feitos com perfeição e simetria, exatamente como ditava a moda e os costumes daquela época. Além disso, são tão femininos e até sensuais, muito embora bastante recatados, que eu tenho a sensação de sentir até o perfume doce e forte de Channel nº5 no ar!
 



 


VESTUÁRIO  X  CRISE DE 1929:

FAÇA VOCÊ MESMA E REMENDE!





Os anos de 1930 foram marcados pela Grande Depressão: a terrível crise econômica que sucedeu a quebra da Bolsa de Wall Street em 1929. Como sempre acontece, as classes trabalhadoras foram as que mais sofreram, porém a crise foi tão devastadora que acabou atingindo a todos.

No que diz respeito ao vestuário, este período ficou conhecido como a época do faça você mesma e remende. Assim, todos os tipos de roupas eram reutilizadas, roupas gastas dos adultos eram cortadas e o tecido aproveitado para se fazer roupas para as crianças, botões e elásticos eram removidos para serem aproveitados em outras peças, e quando um item não mais podia ser reutilizado como roupa ou como outra coisa útil, o tecido era transformado em trapos para limpeza.

Este aspecto histórico em particular não é mencionado diretamente nos episódios. Em todo caso, imagino que Miss Lemon fazia como faziam todas as mulheres naquela época, a fim de continuarem vestindo-se bem ou adequadamente: costuravam elas mesmas, remendavam, reutilizavam. Seja como for, ela aparecia sempre impecável!
 


 
 

ROUPAS  &  (MUITOS) ACESSÓRIOS




Luvas, bolsas, carteiras, broches, lenços, fitas e laçarotes, xales, echarpes, boleros, lábios bem vermelhos, chapéus, casquetes, presilhas, ondas e cachinhos brilhosos e perfeitamente alinhados nos cabelos: a montagem da personagem de Miss Lemon foi feita com todo o esmero, e os números de seu guarda roupa são os seguintes:

·        26 vestidos

·        9 blusas

·        5 saias

·        6 cardigans

·        6 terninhos

·        7 casacos e jaquetas

EMBELEZANDO A CABEÇA: CHAPÉUS



Começando pelos chapéus, os quais eu particularmente adoro, notaram que todos os casacos e sobretudos de Miss Lemon possuem um chapéu na mesma cor? Tratava-se de uma necessidade naquela época que as tonalidades dos acessórios, como chapéus e luvas, sempre combinassem com a dos casacos.


Miss Lemon tem preferência por dois estilos de chapéu: aquele com um topo macio e achatado, o qual ela frequentemente usa no verão; e aquele mais clássico, de aba estreita, estilo fedora.




Ocasionalmente ela usa uma boina ou um turbante também. Em todos os casos, Miss Lemon aprecia muito os enfeites, como flores, botões ou grandes alfinetes de chapéu, ou ainda, a dobradura alinhada do topo do chapéu.



NAS ONDAS DOS CABELOS


Por baixo dos chapéus estão os cabelos! Os penteados de Miss Lemon na série Poirot podem não parecer muito atraentes para o gosto da atualidade, mas nos anos de 1930, era assim mesmo a moda. E as mulheres, naturalmente, eram consideradas lindas e arrumadas se estivessem penteadas desse jeito.


Arrumados em ondas delicadamente achatadas sobre a cabeça, presos cuidadosamente com presilhas, com cachinhos igualmente grudados sobre a testa, muitas vezes com um coque baixo na altura da nuca, e sempre com muito, mas muito gel, para que nenhum fiozinho sequer se desprenda: assim são arrumados os cabelos de Felicity Lemon.



OS MODELITOS DE MISS LEMON


Finalmente, os lindos modelos vestidos por Miss Lemon nos episódios de Poirot. São tantos os looks desfilados pela secretária ao longo da série, com tantas montagens e combinações de peças a partir do conjunto básico, que foi difícil separar apenas umas poucas para este artigo. Vários eu já fui publicando desde o início, mas agora aproveite para observar também as joias, broches, casquetes, e especialmente os lábios com batom bem vermelho.



Sempre priorizando o recato e o decoro, como convinha a uma mulher séria e eficiente como Miss Lemon, as roupas cobrem praticamente todas as partes do corpo a exceção da cabeça e das mãos - se não estiverem dentro de luvas. Ainda assim havia espaço para algumas estampas:


Os cintos, geralmente largos, marcando muito bem e definindo a cintura, bem como os pesados laçarotes sobre o peito constituíam uma de suas marcas:




O vestidinho básico de poá – aquelas bolinhas brancas sobre o fundo azul marinho – representava um ícone da mulher séria e honesta, porém sem posses ou renda e precisando trabalhar. Na verdade, o poá nunca saiu de moda e pode ser facilmente visto até hoje, em modelos mais adequados e contemporâneos, é claro, mas sempre o tradicional fundo azul com bolinhas brancas. Eu mesma tenho um vestido desses!



Para mostrar que não só de golas altas e recatados vivia Miss Lemon, um modelo acrescido do curioso acessório denominado Victoria’s shame ou recato de Vitória, que é um pedaço de tecido bem fino e rendado sobre o peito e debaixo do vestido, justamente para esconder tudo aquilo que o decote mostraria. A propósito, dizem que o nome da famosa marca de lingerie Victoria’s Secret, a qual, como sabemos, não tem nada de recatada ou tímida, foi cunhado a partir da ideia de se fazer um trocadilho com o antiquado acessório Victoria’s shame.


Por último, um elegante modelo com as luvas até os cotovelos, no melhor estilo vestido de noite. Afinal, depois de um longo dia trabalhando com alto grau de eficiência para o exigente Hercule Poirot, bem que Miss Lemon merece!