HERCULE POIROT:
ALGUNS BONS MOTIVOS PARA SE COMETER UM HOMICÍDIO
ALGUNS BONS MOTIVOS PARA SE COMETER UM HOMICÍDIO
Depois de tantos anos – (praticamente uma
vida inteira!) –solucionando os mais intricados crimes de homicídio, há de se imaginar
que Hercule Poirot tenha adquirido um bom conhecimento acerca de tudo que
envolve assassinatos. Elementos que envolvem uma boa trama de crime e mistério como
vítima, cúmplice, assassino, arma, modus
operandi: todos estão interligados e recheiam uma boa história de crime e
mistério.
Porém, um elemento se localiza na base de
tudo: o motivo. Tudo começa com o
motivo – de preferência, um bom motivo. É a partir dele que o assassino começa
a idealizar o homicídio, a arquitetar um plano, a tecer uma trama.
* Obs.: Todas as citações de Poirot foram
extraídas de A Casa do Penhasco.
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Kenneth Branagh como Hercule Poirot |
“Quantas espécies de motivos existem que justifiquem um homicídio?”
(Poirot)
Metódico e organizado como era, Poirot
sabia que a forma mais eficiente de se investigar um homicídio era começando do
começo – ou seja, suscitando os possíveis motivos. Foi assim que, em A Casa do Penhasco, o genial detetive
nos brinda com sua análise pessoal acerca dos motivos para se cometer um
assassinato.
Inicialmente, Poirot levanta duas
categorias opostas de HOMICÍDIO:
por IMPULSIVIDADE versus a SANGUE-FRIO
IMPENSADO versus com PLANEJAMENTO
De um lado,
o assassinato POR IMPULSIVIDADE, cometido a partir de um ímpeto qualquer, em
função da oportunidade e da ocasião favoráveis, sendo geralmente improvisado e
realizado por meio dos recursos disponíveis na ocasião. Via de regra, está
ligado a uma intensa questão psicológica, a qual exige ou remete a uma ação
violenta, rápida e impensada.
É o que
Poirot denomina de: impulso momentâneo
ou privação temporária dos sentidos. Mas
não é nesse tipo de assassinato que o detetive está interessado.
De outro lado, o assassinato A SANGUE
FRIO, entendido como resultado de uma elaboração detalhada, ou seja, cometido através de planejamento cuidadoso. Fruto
de uma mente racional, trata-se daquele homicídio cujas etapas de execução
foram trabalhadas pacientemente.
É por este tipo de homicídio que Poirot
se interessa: o assassinato cometido de
propósito, de forma deliberada.
“QUE MOTIVOS PODERIAM LEVAR ALGUÉM A COMETER UM
HOMICÍDIO DELIBERADO COMO ESSE?”
(Poirot)
Respondendo
sua própria pergunta, Poirot suscita os seguintes MOTIVOS para que se cometa um assassinato:
1- “Bem, a
primeira ideia que ocorre é LUCRO.”
(Poirot)
Quem
lucraria com a morte de alguém costuma ser a primeira pergunta que o detetive belga
faz a si mesmo. Conforme pondera Poirot, o lucro pode vir direta ou
indiretamente, de modo que, nem sempre o herdeiro imediato é necessariamente a
única pessoa a se beneficiar com o homicídio. Em todo caso, alguma forma de
lucro ou vantagem o assassino sempre tem ou espera ter, pois, do contrário, não
valeria a pena o risco.
2- “Que outro
motivo há? ÓDIO? AMOR que se transformou em ódio?" (Poirot)
De acordo
com a conclusão de Poirot, em qualquer um dos casos, trata-se de um crime
passional. Ele descreve, inclusive, um cenário (um tanto quanto melodramática,
como nota o Cap. Hastings) no qual um homem perdidamente apaixonado, porém,
rejeitado ou relegado a segundo plano por sua amada, preferiria matá-la a ter
que vê-la casada com outro.
3- “Certas
pessoas podem ser levadas a cometer crimes em casos assim de AMOR ARRAIGADO À TRADIÇÃO familiar.” (Poirot)
Uma outra
forma de homicídio por amor, no entanto, sem vestígios de crime passional,
seria o amor ao orgulho, à tradição e ao passado. Segundo explica Poirot,
trata-se daquele caso em que o assassino mata alguém com o objetivo de manter
intacto e na família um determinado lugar – provavelmente uma mansão, que teria
sido o lar de seus ancestrais por décadas ou séculos.
4- “Outro
motivo para um crime: CIÚME.”
(Poirot)
De cara,
nos avisa Poirot: Separo ciúme de amor,
porque ciúme pode não ser necessariamente uma emoção sexual. Mais adiante,
o detetive no lembra que há várias formas de ciúmes, os quais podem ser
provocados pelos mais variados motivos.
5- “Existe
a INVEJA: inveja da fortuna de
alguém, inveja do poder.” (Poirot)
A inveja
como motivo para assassinato é autoexplicativa: o homicida deseja obter para si
aquilo que pertence ao assassinado.
O
interessante é que, ao falar da inveja como motivo para se cometer um
homicídio, Poirot nos lembra Iago, personagem de Othello, tragédia de
Shakespeare. Iago era um vilão e, segundo Poirot, cometeu um dos crimes “mais
inteligentes do ponto de vista profissional”: Iago conseguiu que outras pessoas
cometessem o crime por ele, de modo que, para todos os efeitos, ficou com as
mãos limpas.
6- “Por
fim, há o MEDO.” (Poirot)
Em minha
opinião, o medo é um dos sentimentos mais perigosos que há, pois é por natureza
autodestrutivo. Poirot, ao ponderar sobre o medo como motivo em potencial para
se cometer um homicídio, sugere uma hipótese na qual o morto saberia de um
segredo grave do assassino, algo que poderia lhe arruinar a vida, e, por medo
terrível de que esse segredo fosse revelado, o homicida mata a vítima para
silenciá-la.
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Importante
ressaltar que esta classificação de Poirot não pretende extinguir todas as
possibilidades de motivos para se cometer um homicídio. Com facilidade, podemos pensar em outros motivos. A vingança, por exemplo. Ou o desejo de
fazer justiça com as próprias mãos.
O próprio Hercule Poirot já desvendou casos em que os motivos eram outros. Afinal,
a criatividade dos assassinos de Agatha Christie parece quase ilimitada – como
a da própria escritora, sempre apta a nos surpreender na próxima página!