ATÉ O PAPA ERA FÃ DE AGATHA CHRISTIE!
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Papa Paulo VI |
Conta-se
que, nos idos de 1971, em alguma nobre sala do Vaticano, certamente decorada
com requinte, fina mobilha, preciosos quadros e belos afrescos, foi entregue ao
Papa Paulo VI uma curiosa petição. Assinavam-na diversas pessoas proeminentes
na época, entre escritores, poetas, jornalistas, instrumentistas clássicos,
muitos deles, lordes ingleses – mesmo embora a maioria delas nem sequer fosse
católica!
Sua
Santidade teria franzido o cenho com severidade ao começar a ler o documento,
enquanto seus secretários e demais membros do clero o observavam, aguardando respeitosamente.
O Papa passou então para a próxima página, onde se encontrava a lista com os
nomes dos signatários da petição de indulto, e começou a analisá-los com
atenção. Foi então que subitamente sua expressão se alterou e um sorriso se
esboçou em seu semblante: “Ah, Agatha Christie!”, exclamou satisfeito o Papa
Paulo VI, interrompendo o silêncio da sala. E então assinou prontamente o
documento em concordância. A história vazou e desde então o indulto passou a
ser conhecido como o Indulto Agatha Christie.
MAS, DO QUE SE TRATAVA ESTA PETIÇÃO DE INDULTO?
Bem, Agatha
Christie não era Católica então, era Anglicana. Porém, ela se juntou a outros
artistas e intelectuais da época na petição ao Vaticano por uma questão de luta
pela liberdade de escolha, pelo belo e clássico idioma latino e contra decisões
arbitrárias. Explico:
Desde a antiguidade até 1965, todas as missas
católicas eram rezadas em Latim: as assim denominadas Missas Tridentinas. Houve
então uma reunião especial do Clero, conhecida como o Concílio Vaticano II,
onde certas modernidades foram implantadas nos rituais da Igreja Católica. Uma dessas
modernidades foi a abolição das Missas Tridentinas ou em Latim. O próprio Papa
Paulo VI rezou a 1ª missa em vernáculo (língua falada no local) na Itália em
italiano, naturalmente.
Pode
até parecer uma coisa ótima, não é? As pessoas que não entendiam o que era
falado durante as pregações poderiam passar a compreender a mensagem do
Vigário. Mas, e quanto àqueles que gostavam da missa em Latim ou àqueles que
gostavam da tradição e do fator histórico agregado às missas tradicionais, ou
ainda àqueles que apreciavam o idioma enquanto manifestação cultural clássica,
ainda que não fossem necessariamente fiéis Católicos, como o caso de Agatha
Christie? Na Inglaterra, eles se sentiram lesados e foi então que redigiram a
petição pelo indulto: uma permissão especial concedida pelo Vaticano.
O TEXTO DO INDULTO
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Missa Tridentina |
Razões
e argumentos à parte, a verdade é que o texto da petição é muito bonito: fala
de liberdade, de espiritualidade em oposição ao mundo tecnocrata e
materialista, de possibilidade de escolha, e, especialmente, enobrece o idioma
latino. Pensei em traduzi-lo, até porque
ele é pequeno e bem objetivo – como convém à classe artístico-literária inglesa
–, mas, infelizmente, qualquer forma de reprodução do mesmo é proibida sem
autorização prévia. O link para o original, porém, encontra-se ao final desta
postagem. Vale a pena ler!
SIGNATÁRIOS DO INDULTO: FAMA E PRESTÍGIO
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Agatha Christie |
Abaixo,
reproduzo a extensa lista de signatários do Indulto, na maioria, escritores,
com pequenas observações sobre alguns deles. Percebam o quanto Agatha Christie
é importante, pois, mesmo dividindo a assinatura do documento com tantas
celebridades, ainda assim, ele foi apelidado com seu nome!
Harold Acton (Sir Harold Mario Mitchell Acton CBE,
professor e escritor britânico)
Vladimir Ashkenazy (pianista russo)
John Bayler
Lennox Berkeley
Maurice
Bowra (critico literário chinês)
Agatha
Christie
Kenneth
Clark (diretor do Museu do Reino Unido e historiador de arte)
Nevill Coghill
Cyril Connolly
Colin Davis (maestro inglês)
Hugh Delargy
Robert Exeter
Miles Fitzalen-Howard
Constantine Fitzgibbon
William Glock
Magdalen Gofflin
Robert
Graves
Graham
Greene (escritor inglês, com uma obra composta de romances, contos, peças
teatrais e críticas literárias e de cinema.)
Ian Greenless
Joseph Grimond
Harman Grisewood
Colin Hardie
Rupert Hart-Davis
Barbara Hepworth
Auberon Herbert
John Jolliffe
David Jones
Osbert Lancaster
F.R. Leavis
Cecil Day Lewis (poeta anglo-irlandês, pai do ator
Daniel Day-Lewis)
Compton Mackenzie
George Malcolm
Max
Mallowan (2º marido de Agatha Christie, arqueólogo)
Alfred
Marnau
Yehudi
Menuhin (violinista e maetro norte-americano)
Nancy
Mitford
Raymond
Mortimer
Malcolm
Muggeridge (jornalista, escritor, soldado-espião britânico)
Iris
Murdoch
John
Murray (teólogo escocês)
Sean
O'Faolain (contista irlandes)
E.J.
Oliver
Oxford and Asquith (H.H. Asquith, ex 1º Ministro
Britânico)
William Plomer
Kathleen
Raine (poeta e escritora britânica)
William
Rees-Mogg
Ralph
Richardson (ator britânico, atuou em “Dr. Jivago”, “O Ídolo Caído”, entre
outros)
John Ripon
Charles Russell
Rivers Scott
Joan
Sutherland (soprano australiana)
Philip
Toynbee (poeta e romancista britânico)
Martin
Turnell
Bernard
Wall (Bispo católico)
Patrick
Wall (neurocientista britânico)
E.I.
Watkin
R.C.
Zaehner (professor, pesquisador, especialista em religioes ocidentais)
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* Confira aqui mesmo nesta
blogazine o artigo com fotos da igreja onde Agatha foi batizada e aquela que
frequentava:
* Texto
original do Indulto Christie:
* Sobre
o Indulto Christie:
* Para
ler mais sobre Agatha Christie e sua religiosidade: http://www.firstthings.com/onthesquare/2009/08/the-christian-world-of-agatha-christie
* Para saber mais sobre a missa em Latim e o Papa Paulo VI:
* Para ler mais sobre ritos da missa católica: