O
CAVACO NÃO PULA LONGE DO TOCO!
![]() |
Cenas variadas do seriado de TV Poirot |
obs: O artigo a seguir NÃO contem ending spoiler. Fique tranquilo.
Todas as fotos de cenas de filmes são puramente
ilustrativas.
Alguns
de meus antepassados, que nasceram e cresceram em fazendas e regiões de campo
do Brasil ou de seus países de origem, costumavam me sair com os mais
interessantes ditados, muitas vezes engraçados, os quais ficaram guardados para
sempre em minha memória. Um desses ditados diz assim: O cavaco não pula longe do toco! Bem, para quem não sabe o que é cavaco, trata-se nada mais, nada meno,
do que aquela lasca que se desprende e salta do pedaço de madeira que se está
cortando com um machado.
E em que situação se aplica este ditado? Em várias, como
acontece com as frases da sabedoria popular. Porém, a mais comum delas é para
ilustrar o fato de que as origens de uma pessoa ficam para sempre marcadas
nela, de modo que, em qualquer coisa que façam, e mesmo que pretendam, não
poderão iludir o olhar mais atento, que sempre encontrará traços destas origens
nela. O mesmo ocorre com os assassinos criados por Agatha Christie: eles se
originaram na mente criativa e sagaz da escritora, e neles haverá
constantemente traços desta esperteza.
Na 1ª parte deste artigo, ao tratar da grande esperteza dos
assassinos criados por Agatha Christie para executarem seus propósitos
criminosos, desenvolvi uma classificação dos métodos utilizados por eles, que
foi a seguinte:
1- Técnica do disfarce:
a) os personagens que fazem uma alteração em sua identidade;
b) os personagens que adotam uma identidade inteiramente
falsa.
2- Técnica de se fazer de vítima:
a) a falsa vítima em potencial;
b) a falsa vítima fatal.
3- Técnica do álibi:
a) o álibi sólido;
b) o álibi perfeito.
4- Técnica da identidade surpreendente;
5- Técnica da conspiração;
6- Técnica de mascarar um assassinato com outro:
a) a tentativa de assassinato;
b) o assassinato real;
c) o falso assassinato.
7- Técnica da manipulação;
8- Técnica do blefe:
a) o blefe essencialmente maligno
b) o blefe vingador
9- Técnica do assassino bom moço;
10- Técnica do fiel protetor;
11- Técnica da calúnia.
Nesta segunda parte do artigo, pretendo desenvolver as seis
últimas classificações das técnicas listadas acima.
Volto a salientar, todavia, que esta classificação, em
primeiro lugar, consiste em apenas uma das várias possíveis perspectivas de
análise crítica estruturalista sobre a obra de Agatha Christie; e, em segundo
lugar, não pretende ser conclusiva nem tampouco dar conta de todas as técnicas
existentes em sua vasta obra das diferentes formas utilizadas pelos assassinos.
CLASSIFICAÇÃO
DAS TÉCNICAS DOS ASSASSINOS
parte 2
![]() |
Cena do episódio A Extravagância do Morto, do seriado de TV Poirot, estrelando David Suchet como Hercule Poirot. |
OS
MORTOS NÃO FALAM:
6- a
técnica de MASCARAR UM
ASSASSINATO COM OUTRO
ASSASSINATO COM OUTRO
Uma forma de desviar a atenção para o crime que se pretende
cometer, ou que já se cometeu, é lançar o foco sobre outro crime qualquer.
Assim, todos se ocupam daquele outro crime, deixando o caminho livre para as
genuínas intenções do malfeitor. No caso do assassino, se todos os olhares investigativos
se voltarem para outra morte, talvez ninguém perceba o assassinato que ele quer
cometer...
A técnica de mascarar um assassinato com outro se divide em
três tipos:
a) o da tentativa de assassinato;
b) o do assassinato real;
c) o do falso assassinato.
Esta técnica é mais simples do que parece. Em algumas
estórias, o assassino tem sorte e ocorre oportunamente uma tentativa de
assassinato – mas esta ação frustrada para acabar com a vida de alguém não foi
realizada pelo assassino em questão. Espertamente, ele, que vai cometer ou já
cometeu seu assassinato, se utiliza daquela tentativa para disfarçar o seu
próprio ato, tentando, por exemplo, fazer com que todos pensem que os dois
crimes estão relacionados, que foram cometidos pela mesma pessoa, ou algo assim.
Pode ser, no entanto, a sorte do assassino seja que tenha
havido um assassinato real e não uma tentativa frustrada. Mas este assassinato
foi cometido por outra pessoa, não por nosso assassino em questão.
Aproveitando-se desta oportunidade, ele então providenciará do mesmo modo para
que todos acreditem que há uma relação entre os dois crimes, a fim de mascarar
sua identidade e motivos.
Outros assassinos, porém, preferem dar uma ajudinha para a
sorte. Eles se utilizam do instrumento de um falso assassinato a fim de criar
uma oportunidade para cometerem o verdadeiro assassinato que pretendem. Em
geral, alguém morre de causas naturais ou acidentais, mas o assassino manipula
esta morte fazendo parecer que foi um assassinato. Alguém chama a polícia, às vezes
ele mesmo, e enquanto todos estão atentos aos acontecimentos envolvendo o
primeiro morto, o assassino aproveita a chance para matar quem ele realmente
pretendia.
![]() |
Cena do episódio A Terceira Moça, do seriado de TV Poirot, estrelando David Suchet como Hercule Poirot. |
HAVERÁ
PERDÃO PARA OS TOLOS?
7- A
técnica da MANIPULAÇÃO
Quando uma pessoa resolve matar alguém, mas manda ou paga
para que outro faça o trabalho sujo, se descoberto o esquema, ambos são
considerados igualmente culpados do terrível crime. Ora, então, para extinguir
até mesmo esta possibilidade, que tal fazer com que outra pessoa dê cabo da
vida da vítima, porém, de um jeito que esta outra pessoa nem perceba a tolice
que está cometendo?
É o como opera uma das mais terríveis mentes criminosas
criadas por Agatha Christie: a do assassino manipulador, que induz uma pessoa,
geralmente tola ou crédula, a cometer o assassinato em seu lugar. E, como se
não bastasse, cria uma situação na qual o desavisado assassino de fato comete o
crime sem sequer ter a noção de que está causando a morte de alguém.
JOGADA
DE MESTRE:
8- A
técnica do BLEFE
Quando todas as evidências apontam para um suspeito e esta
pessoa em particular aceita tudo sem protestar, cabisbaixa, resignada,
entregando-se ao seu cruel destino voluntariamente, estendendo os braços para
que seja algemada e levada a julgamento, com olhar de profunda tristeza, você,
ainda que seja por alguns breves segundos, não fica com uma pedacinho do
coração partido e com outro pedacinho da mente desconfiado de que aquela pessoa
não deve ser afinal o verdadeiro criminoso? Não dá uma vontade de se
materializar na estória e sair investigando o caso por conta própria a fim de
encontrar o verdadeiro culpado e livrar o pobre da pena de morte? Aliás, a
propósito, este é exatamente o mesmo enredo de dezenas de filmes e séries de
TV, não é mesmo?
Hercule Poirot, por exemplo, algumas vezes se encontrou
nesta situação e saiu ele mesmo em busca da solução do crime e do verdadeiro
culpado com o propósito de livrar um inocente da condenação. Agora, veja só: e
se a tal pobre pessoa que se deixa prender tão resignadamente, causando tanta
pena e simpatia em todos nós, for de fato o verdadeiro assassino? E se ela
estiver apenas fingindo ser uma pobre
vítima do destino e das provas que apontam para ela? Que jogadora terrivelmente
ousada seria esta então! Que grande blefe! E que assassino frio e esperto!
A técnica do blefe se subdivide em dois tipos:
a) o
blefe essencialmente maligno
b) o
blefe vingador
O assassino que é essencialmente um blefador, se veste da
mais perfeita vítima das circunstâncias, lançando mão de artifícios malignos os
quais, ao mesmo tempo, permitem que se construam provas contra ele, mas também,
fazem com que ele pareça ser um inocente que deu muito azar. Fingindo-se de um
tolo que caiu em uma terrível cilada, o assassino ousado que lança mão desta
forma de blefe apela para os efeitos psicológicos que pode causar sobre os
outros personagens, especialmente sobre os investigadores e o detetive.
Ele faz coisas como recusar-se a se defender, tentar se
incriminar com provas falsas, fingir confessar o crime para proteger um ente
querido, ser pego com uma expressão aterrorizada diante da vítima e com a arma
do crime na mão, como se estivesse em choque e a tivesse pego por reflexo.
Enfim, ele não esconde o fato de ser o assassino: apenas se esforça para
cativar a simpatia dos outros e a criar uma situação que faz com que ele pareça
tão inocente como um bebê indefeso. A consequência prática deste blefe é que,
caso seja julgado e inocentado, ele não poderá ser julgado novamente pelo mesmo
crime – aquele crime o qual, quase íamos nos esquecendo, ele cometeu de verdade!
Já o assassino blefador vingativo se encontra entre uma das
mentes mais cruéis do universo de Agatha Christie. Trata-se daquele personagem
que, sabendo que irá morrer de qualquer forma, por exemplo, por uma doença
fatal ou porque está decidido ao suicídio, resolve criar todo uma estratégia
para que sua morte pareça ter sido um assassinato cometido justamente por
aquela pessoa de quem pretende se vingar.
![]() |
Cena do episódio Mistério no Caribe, do seriado Marple, estrelando Julia McKenzie como Miss Marple. |
LOBO EM
PELE DE CORDEIRO:
9- A
Técnica do bom moço ou da boa moça
Trata-se de um consenso o fato de que aquela pessoa que
encontra o morto e chama a polícia encontra-se, a princípio, fora da lista de
suspeitos de serem o responsável pela morte. O mesmo vale para os casos em que
alguém contrata um detetive particular para investigar um assassinato. Afinal,
acredita-se que o interesse do assassino seja que o seu crime fique sem ser
descoberto, e, portanto, não seria ele quem levantaria a lebre para que se
resolva o enigma.
A partir da mesma ideia, se o detetive se envolver
totalmente por acaso na investigação de um caso de assassinato, a pessoa que
representou o elo puramente coincidente entre o detetive e o caso em questão
não tem nada a ver com o crime, certo? Errado! Afinal, coincidências não
existem. Aquele personagem aparentemente tão inocente, que aparentemente sem
qualquer premeditação serviu para conectar o investigador ao crime pode ser, na
verdade, o cruel assassino, e a presença do detetive no caso pode ter sido
secreta e previamente planejada.
MELHORES
AMIGOS PARA SEMPRE
10- A
técnica do fiel protetor
O que não faria uma boa mãe ou um bom pai para proteger seu
filho? Ou uma irmã, um irmão, um marido, uma esposa, um filho, uma filha, um
parente ou um amigo fiel para proteger alguém que ama profundamente da terrível
pena capital? Em algumas estórias engendradas por Agatha Christie, o assassino
confesso não é o verdadeiro assassino: é alguém que, em nome do amor ou da
honra, chama para si a falsa responsabilidade a fim de proteger o nome e a vida
de alguém.
Em outros casos, todavia, os motivos não são tão nobres,
mas, mesmo assim, alguém acaba acobertando o verdadeiro criminoso de algum
modo, protegendo-o e impedindo que o crime ou sua identidade sejam revelados.
Agindo a partir de um senso de lealdade ou por puro interesse, o fiel protetor
impede que o criminoso pague por seu ato, seja através de falso testemunho, do
silêncio, de mentiras, ou de algum artifício semelhante.
![]() |
Cena do episódio Os Elefantes não Esquecem, do seriado de TV Poirot, estrelando David Suchet como Hercule Poirot. |
COM AGATHA CHRISTIE NUNCA SE SABE!
11- A
técnica da CALÚNIA
Por último, a mais tradicional entre todas as técnicas
utilizadas pelos assassinos a fim de se eximirem da culpa: lançar a
responsabilidade pelo crime sobre outra pessoa. Porém, como estamos tratando de
Agatha Christie, esta técnica tão tradicional não poderia ter sido utilizada
pela escritora de forma comum e previsível.
Para não estragar aqui a surpresa de algumas estórias da
Rainha do Crime, eu prefiro aqui, ao tratar da técnica da calunia, a simplesmente
me limitar a dizer que, como muitos já sabem, com Agatha Christie nunca se
sabe!
*********************
Atenção: ending spoiler a partir deste ponto!
Alguns exemplos das técnicas utilizadas pelos assassinos
acima descritas:
6- Como técnica de MASCARAR
UM ASSASSINATO COM OUTRO, podemos citar Depois do Funeral (1953) e A Casa Torta (1949), onde ocorrem tentativas de assassinato
para poder desviar a atenção do verdadeiro crime.
Há ainda Cartas na Mesa (1936), onde o
assassino encontra a vítima dormindo, mente para a criada que ela foi morta e
depois a mata de verdade.
Em Depois do Funeral (1953), todos
suspeitam de uma morte natural depois que alguém intencionalmente sugere que
tenha sido um assassinato.
Em Gato Entre os Pombos (1959), apenas
2 das 3 mortes foram executadas pelo assassino.
7- Como
técnica da MANIPULAÇÃO, podemos observar
Cem
Gramas de Centeio (1953), no qual uma criada tola é manipulada pelo
verdadeiro assassino a envenenar seu patrão colocando em sua geleia o que ela
pensou ser um remédio.
8- Como
técnica do BLEFE, temos O
Misterioso Caso de Styles, (1920), onde o aparente assassino – o marido
da vítima – que se comporta de modo estranho, se recusa a se defender e tenta
se incriminar com falsas provas.
Em Morte na Rua Hickory, (1955), tantas são as pistas contra o
assassino que parece que ele está sendo vítima de um esquema para incliminá-lo
injustamente.
Em A Morte de Lord Edgware, (1933), a
assassina anuncia abertamente para o mordomo que cometerá o assassinato, mas
engendra um álibi no dia em que o crime ocorre para se livrar das suspeitas.
Em O Ninho da Vespa (1935), o assassino
sabe que morrerá de uma doença terminal e arquiteta um plano para cometer suicídio
e depois que sua morte seja atribuída a outra pessoa.
Em Marco Zero (1944), o assassino
psicopata falsifica provas para parecer que ele cometeu um assassinato brutal,
mas como parte de um elaborado plano para atribuir a sua ex esposa a culpa por
outro assassinato.
9- Como
técnica do assassino bom moço, temos
O
Assassinato de Roger Ackroyd (1926), no qual o assassino, Dr, Sheppard,
era não apenas o narrador da estória como também havia se associado a Poirot
nas investigações do crime.
Em A Morte de Lord Edgware, (1933), a
assassina pede a Poirot que lhe ajude a conseguir um divórcio e arquiteta um
esquema para parecer que ela não possui qualquer motivo para matá-lo.
Em A Casa do Penhasco (1932), o
assassino, aparentemente por acaso, envolve Poirot na investigação do crime.
10- Como
técnica do fiel protetor, há A
Mansão Hollow, (1946), onde Poirot chega à cena do crime a tempo de testemunhar
uma mulher com uma arma nas mãos diante do corpo morto de seu marido, porém,
diferentes testemunhas incriminam-se umas as outras na tentativa de livrar a
mulher por quem nutriam especial simpatia.
Em Elefantes Nunca Esquecem (1972), a
própria vítima pede ao assassino que troque de identidade com ela por uma
questão de devoção familiar.
Em O Caso do Hotel Bertam (1965), Bess
Sedgwick confessa que foi ela quem cometeu o assassinato e depois se suicida a
fim de proteger sua própria filha, a verdadeira assassina.
Em A Maldição do Espelho (1962), Jason Rudd age sempre tentando proteger sua desequilibrada
esposa Mariana, que havia matado várias pessoas.
11- A técnica da
calúnia pode ser evidenciada em Os Crimes ABC (1936), onde o
assassino envia cartas a Poirot antes dos crimes serem cometidos, coma intenção
de lançar a culpa pelos crimes sobre uma pessoa inocente.