DESORGANIZANDO
A ORDEM CRONOLÓGICA
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Agatha Christie |
(Obs: este artigo NÃO contém ending spoiler!)
No
artigo Agatha Christie e a Esperteza
dos Assassinos (parte 1 e 2), eu propus uma classificação para os métodos utilizados
pelos assassinos nas estórias concebidas por Agatha Christie. Conforme coloquei
inicialmente, tal classificação não é definitiva, nem tampouco extingue todas as
possibilidades de análise estrutural de sua obra: trata-se apenas de um viés que segui ao analisá-la, com o foco incidindo sobre o modus
operandi dos seus criminosos.
À luz
de outra perspectiva, podemos notar uma característica em particular, comum a
vários assassinos criados por Agatha Christie: sua capacidade de mudar o curso do tempo.
Trata-se de um recurso utilizado por estes criminosos durante o processo de
execução de seus crimes, método este de suma importância para que as suspeitas
não recaiam sobre eles e, consequentemente, pareçam inocentes como um bebê sorridente
segurando sua chupeta.
O RECURSO DA
MÁQUINA DO TEMPO
Mas,
como assim mudar o curso do tempo?
Bem, é claro que eles não são capazes de mudar o curso natural do tempo de verdade: apenas se utilizam de subterfúgios
para dar a impressão que uma determinada
coisa aconteceu em um dado momento, mas na realidade, não aconteceu! Ao fazerem
isso, estes criminosos conseguem confundir a todos, inclusive a polícia e os
detetives. Além disso, ao enganarem as pessoas fazendo com que acreditem que certo acontecimento se deu na ocasião cuidadosamente escolhida por eles, os
assassinos podem construir álibis perfeitos para si mesmos através de
testemunhas irrefutáveis.
É o que
acontece, por exemplo, quando o assassino, ou assassinos cúmplices, se utilizam
de esquemas planejados com precisão com o propósito de fazer parecer que:
* a vítima, já falecida na realidade, deu um
telefonema para uma outra pessoa bem na frente do próprio assassino, tornando-se
esta outra pessoa uma testemunha de que naquela hora a vítima estava viva e
também um álibi para o assassino;
* o
assassinato ocorreu em uma determinada hora no passado em que o assassino tinha um ótimo álibi,
mas na verdade, aquilo não foi um assassinato real: foi apenas um engodo ou uma
encenação, e assim o assassino tem a chance de matar a pessoa em outra ocasião
mais propícia;
* de forma semelhante, o assassinato real ocorreu
em um determinado momento bem antes da hora em que todos pensam que ele ocorreu, de modo que novamente o assassino fica salvaguardado por um álibi;
* a vítima,
que já está morta, é vista e reconhecida em um lugar público, como uma estação
de trem, por exemplo, mas na realidade, tratava-se de um cúmplice ou do próprio
assassino disfarçado como sendo a vítima;
* o
assassino simula sua própria morte, tornando-se obviamente inocente do outro
assassinato que ainda irá cometer.
Em
todos esses casos, o verdadeiro e exato momento do crime fica escondido sob a cortina
de fumaça da nova e falsa ordem
cronológica dos fatos que foi criada habilmente pelo assassino.
MANIPULANDO
O TEMPO E AS PESSOAS
A fim
de conseguirem enganar as pessoas dando uma impressão falsa dos acontecimentos
na linha do tempo, diversos recursos cênicos são utilizados pelos assassinos e
seus cúmplices. Através deles, os criminosos conseguem manipular os outros mexendo com seus sentidos e provocando certos efeitos psicológicos
esperados sobre eles. Em outras palavras, os criminosos usam do poder de sugestão para
fazer com que as pessoas, vendo ou ouvindo uma certa coisa sutilmente escolhida
pelo assassino – por exemplo, um brilho metálico na mão de alguém – acreditem
piamente que viram ou ouviram uma outra coisa – ou seja, uma pessoa segurando
uma faca.
Como alguns
dos muitos estratagemas comuns na aplicação do recurso da máquina do tempo,
temos a produção de sons e imagens que têm o objetivo de manipular os sentidos das
pessoas, tais como:
* tiros
disparados ao léu, ruído de objetos caindo;
* gritos agonizantes ou gemidos engasgados, ruído de combate corpo a corpo;
* portas ou janelas se abrindo ou batendo ao fechar;
* ligações
telefônicas falsas; campainha da porta de entrada;
* telegramas,
cartas, postais, bilhetes, recados falsos;
* pessoas conversando ou cochichando.
O TEMPO
CORRE MESMO IGUAL PARA TODOS?
Este
tipo de subterfúgio adiciona uma óbvia complicação ao caso, uma vez que, o fluir
tempo constitui uma verdade absoluta para todos. Ao bagunçar com a ordem
cronológica, Agatha Christie adiciona mais um tempero à genialidade de seu
método. Afinal, arrumar os acontecimentos na ordem exata como ocorreram é a
premissa básica para qualquer investigador, dos mais novatos ao sublime Hercule
Poirot.
Em todo caso, um mistério nesta questão do tempo ainda permanece
obscuro: como é que Agatha Christie consegue burlar o tempo, a história, os críticos mordazes e as
gerações, e continuar sendo tão intrigante, tão admirada e tão lida em escala mundial?
Um
mistério que só o tempo poderá revelar...
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Exemplos:
Atenção:
a partir deste ponto: ending spoiler!!
Alguns
exemplos de obras onde o assassino lança mão do recurso da máquina do tempo
são:
Morte na Rua Hickory (1955) – a vítima telefona para o assassino bem na presença de ninguém mais, ninguém
menos que Hecule Poirot.
E Não Sobrou Nenhum (1943) – o assassino simula a própria morte e continua matando outras pessoas.
Morte na Praia (1941) – os criminosos simulam um assassinato para uma hora em que ambos possuem
um álibi, e cometem o verdadeiro crime mais tarde.
O Natal de Poirot (1938) – o assassinato é cometido 1 hora antes da hora que todos pensam que o
crime aconteceu, providenciando assim um álibi para o assassino.
O Mistério do Trem Azul (1928) – a cúmplice do assassino se disfarça como a vítima para ser vista em uma
estação de trem em um momento no qual a morte já havia ocorrido.